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Afeto: O que acontece quando mulheres se encontram na raiva

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  Enfrentei o medo e fui sozinha ao TUSP Maria Antônia. Eu sei, é perto do metrô, o acesso é fácil, as ruas são movimentadas. No entanto, nunca havia feito esse caminho sozinha. Mas, nesse processo de aprender a fazer coisas por conta própria e com a vontade sempre latente de espectar, me conduzi até esse algo novo. Lá estava eu, ouvindo um samba vindo da rua enquanto aguardava na fila e lia o programa do espetáculo pelo QR Code. Foto: Caio Oviedo E, ao entrar na sala, fui imediatamente abraçada pela energia da peça. Afeto não se contenta em apenas denunciar as violências que atravessam a vida das mulheres. A dramaturgia de Carla Zanini nos conduz a um território onde a dor se transforma em ação e onde a vingança não é apenas um desejo: é vivida, ainda que simbolicamente, em toda sua visceralidade. A história de Úrsula, Aisha e Bete — três mulheres unidas pela solidão, pela raiva e pelos traumas que carregam — é narrada com humor ácido e tensão crescente, prendendo a atenção da pl...

O que reverbera ao vivo? Corpos dissidentes e o necessário desconforto em cena

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Foto: Nana Moraes Com a direção e o texto de Marcio Abreu, AO VIVO [dentro da cabeça de alguém] é o mais recente trabalho da companhia brasileira de teatro, em cartaz no Teatro do Sesi-SP, com entrada gratuita. O espetáculo conta com um elenco diverso, formado por Renata Sorrah, Rodrigo Bolzan, Rafael Bacelar, Bárbara Arakaki e a incrível Bianca Manicongo. A peça convida o público a mergulhar em uma suposta biografia. Inspirada nas obras de Anton Tchekhov, a narrativa explora os caminhos da memória, dos sonhos e do tempo, questionando o lugar das experiências individuais e coletivas na sociedade brasileira contemporânea. Mas, o que acontece quando corpos tão distintos ocupam o palco? O que podem corpos discentes em cena? Que impacto há em ver Renata Sorrah dividindo o palco com mulheres trans e drags? E o que essas presenças causam a um público que, muitas vezes, não está acostumado com as subversões do teatro? Em tempos de campanhas políticas permeadas por discursos misóginos e conse...

Do Mal-Estar ao Legado: O Teatro como História e Resistência

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  Desde o primeiro momento, Exílio: notas de um mal-estar que não passa impõe uma inquietação intensa. A obra nos obriga a confrontar o peso de uma história marcada pela violência do exílio, não apenas como desterro geográfico, mas como condição permanente de corpos negros em um mundo que constantemente o desloca de seu próprio lugar. Sob a direção de Eugênio Lima, o Coletivo Legítima Defesa constrói uma experiência teatral onde o tempo e o espaço se embaralham, deixando a espectadora em uma espécie de suspensão, desvencilhando a narrativa de Abdias Nascimento e Augusto Boal. A peça se destaca pela demarcação cênica que mantém todo o elenco visível o tempo todo, durante as passagens entre personagens e cenas. Embora essa técnica seja comum, ela confere uma plasticidade funcional e atraente ao espetáculo. A história é contada através de projeções, leituras de cartas, documentos e livros, que somados ao texto e à encenação, criam uma atmosfera quase documental. No entant...

A Bailarina Fantasma: Subversão, Memória e Resistência

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                 Foto: Noelia Nájera Na peça-instalação A Bailarina Fantasma , a dramaturga Dione Carlos e a bailarina Verônica Santos colaboram para apresentar uma obra onde gênero e raça se entrelaçam, desconstruindo os estereótipos do balé clássico em uma performance profunda e crítica. Inspirada pela famosa escultura de Edgar Degas, A Bailarina de 14 Anos, a peça propõe ao público uma viagem por questões do apagamento histórico e da objetificação dos corpos femininos negros. A abordagem meticulosa de Dione coloca em perspectiva as violências invisíveis, físicas e simbólicas, que sustentam a indústria da dança, acentuadas pela construção de corpos moldados para a conformidade e o controle. A obra de Degas é uma referência central: as esculturas feitas em bronze, que escurecem ao longo do tempo, remetem ao modo como a própria representação da bailarina de Degas foi erroneamente associada a uma jovem negra e, assim, foi alvo de ataques...

Um mar de poesia em: "Para Mariela"

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  O grupo de teatro Sobrevento, consagrado no teatro de objetos e com vasta experiência com o público infantil, revela uma sensibilidade única em sua peça "Para Mariela". A obra apresenta um trabalho de palco refinado, onde a especialização do grupo em sua linguagem cênica se traduz em uma performance que evoca sentimentos e emoções. A peça é também um tributo à cultura boliviana, fortemente presente no bairro do Belenzinho, onde o grupo está sediado. Esse elemento cultural permeia toda a encenação, desde os figurinos e a música até os objetos cênicos, conectando o imaginário infantil à diversidade e riqueza da Bolívia. Longe de qualquer repetição, o grupo exibe virtuosismo, apuro técnico e uma habilidade singular que se transformam, ao longo da apresentação, em verdadeiros "afetos cênicos". Trata-se de um teatro infantil que beira o ideal. Ao final da peça, mãe e filha  deixaram a sala cativadas por diferentes razões. Eu, pela excelência técnica que a obra carrega;...

A Beleza e a Poesia de Trajetórias Femininas

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Foto: Nil Caniné   O espetáculo Isabel das Santas Virgens e Sua Carta à Rainha Louca , emerge como uma epopeia, onde as nuances da existência feminina são tecidas com a delicadeza de quem percorre tempos longínquos e opressores. A narrativa, inspirada no livro de Maria Valéria Rezende, conduz-nos pelas peripécias da vida de Isabel, uma mulher que, enredada nos costumes de um Brasil ainda subjugado pela coroa portuguesa, no século XVIII, carrega em sua trajetória a marca das paixões e da poesia, da força e da devoção. A peça se destaca não apenas pela complexidade de sua protagonista, mas também pela capacidade de evocar, de maneira sutil e pungente, o peso histórico das opressões que mulheres enfrentam ao longo dos séculos. Atravessando as fronteiras do tempo, Isabel nos mostra que, apesar de silenciada pelas amarras sociais, sua voz ecoa em forma de resistência, amor e desejo por liberdade. Entretanto, se há potência nas camadas dessa narrativa, sente-se a ausência de um imaginári...