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Divórcio: o que ainda precisa ser dito?

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  Confesso que cheguei ao teatro acreditando que assistiria a uma peça densa, marcada quase exclusivamente pela violência contra as mulheres, como a cruel história que atravessou — mas não limitou — a vida de Maria da Penha. Saí do teatro precisando de um tempo para me recolher, pensar, digerir, lidar com lembranças e sensações. Ainda assim, dei boas risadas e fiz conexões importantes durante a apresentação. Divórcio não ameniza a violência. Ao contrário, encontra formas de nos fazer atravessá-la sem nos paralisar. Logo no início, ao acompanharmos a personagem de classe média vivendo seu processo de separação, somos envolvidas pela neblina da dor, da confusão e de uma espécie de "desfuturo" que o divórcio provoca. É uma sensação que ultrapassa a perda. É como estar diante de uma ponte que se rompe ao meio. Para onde ir se já não existe mais o caminho de volta? E qual é o caminho que segue adiante? A solidão dessa mulher, e das outras mulheres que habitam a cena deste espetác...

Pra Lá de Marrakech: notas sobre o que não sei

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  Uma atriz, alguns tapetes e objetos de cena, uma boa iluminação, um texto bem escrito e narrado. Acolhimento, aconchego e distâncias, muitas distâncias. Sonhos, perdas, revoltas e vazio. Interação, recepção, risos e choro. Assim, a atriz Khazar Masoumi atravessa o palco com uma presença que nos mantém perto. Apesar da minha formação em História, constato sem espanto, mas com brutal honestidade de quem se especializou em coisas outras, que não sei quase nada sobre o Irã. Tampouco sobre a antiga Pérsia. Enquanto assistia a Pra Lá de Marrakech , percebi que esse desconhecimento não era apenas meu. Reconhecemos imagens, repetimos notícias e, por vezes, emitimos opiniões sobre conflitos que atravessam continentes, mas conhecemos pouco além da superfície das histórias que sustentam essas vidas. A peça se abre pelas frestas metafóricas dos tapetes que aparecem logo no início da encenação e me levaram imediatamente à sala da casa da minha infância. Eles habitam um imaginário que me é fam...

O risco calculado da vulnerabilidade

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  Foto:  Alle Vidal Em tempos em que a intimidade se converte facilmente em conteúdo e as fronteiras entre o público e o privado parecem cada vez mais tênues, partir da experiência de uma mulher que encontrou no sexo virtual uma fonte de renda durante a pandemia é um mote teatral potente. Em TIP, Milla Fernandez transforma essa vivência em matéria cênica e nos conduz por um universo que, embora não seja exatamente desconhecido, ainda permanece cercado por silêncios, preconceitos e curiosidades. A primeira qualidade da montagem está justamente em sua capacidade de capturar a atenção da plateia. A direção, as escolhas visuais, o desenho rítmico da encenação e, sobretudo, a presença de Milla Fernandez constroem uma experiência envolvente. Sua interpretação é impecável. A atriz mobiliza múltiplos recursos expressivos como o canto, música, humor, domínio corporal e trânsito entre idiomas, sem que a narrativa perca fluidez. Entramos em sua história e permanecemos nela durante toda a...

Eu e ela: quando a memória negra ocupa o palco e a cidade

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  Assistir Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus , de Dirce Thomaz, é presenciar uma travessia entre tempos históricos que continuam demasiadamente próximos. A montagem, de cena despojada e marcada por livros espalhados como vestígios de uma vida escrita à margem, recusa o excesso estético para apostar na força da palavra e da presença. Dirce Thomaz ao interpretar Carolina Maria de Jesus convoca o público para um diálogo vivo. A semelhança física entre ambas impressiona de imediato, borrando as fronteiras entre biografia e representação e intensificando o encontro entre duas trajetórias de mulheres negras que transformaram exclusão em criação.  Em cena, Carolina e Dirce se atravessam: ora personagem e intérprete, ora espelho e continuidade histórica. A peça acerta especialmente ao não  tratar a pobreza exclusivamente como paisagem da miséria e sofrimento, mas como território de invenção, escrita e resistência, sem no entanto, romantizar o que é dos maiores problemas ...

A Estética da Saudade

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  Saindo do Sesc Santana, segue-se pela Av. Luiz Dumont Villares, Avenida Nova para os íntimos, rumo à Avenida Zaki Narchi. Onde hoje existe um posto de gasolina, na esquina com a Rua Jacuna, atravessa-se a rua e vira-se a terceira à direita, na Guaracininga. Foi ali que passei parte da infância: jogos improvisados na rua, brincadeiras que transformavam qualquer pedaço de concreto em território imaginário, amizades que o tempo afastou da convivência cotidiana, mas que seguem vivas em alguma região do afeto e, às vezes, do Instagram. Não morando mais naquele bairro, percebo que retornar àquela região produz uma espécie de nostalgia geográfica. Antes mesmo de entrar no teatro, meu corpo já estava implicado emocionalmente por uma memória espacial. Talvez por isso Saudade , espetáculo do grupo Os Geraldos, tenha me atravessado desde o início: não apenas pelo tema da infância, mas pela forma como a peça transforma lembrança individual em memória coletiva encenada. As brincadeiras aprese...

Do fio d’água ao transbordamento - A Força da Água

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  O coletivo cearense Grupo Pavilhão da Magnólia presenteou o público paulistano com o espetáculo a Força da Água , que realizou uma curta temporada no Sesc Paulista.  A obra parte de uma pergunta que parece simples, mas que organiza toda a força política do espetáculo: e se a seca não for uma fatalidade da natureza, mas consequência de decisões históricas, econômicas e políticas? A partir dessa perspectiva, a peça constrói um percurso documental que revisita diferentes momentos da história do Ceará, articulando documentos oficiais, relatos, humor e teatralidade para desmontar a naturalização da escassez de água no Brasil. Assumidamente documental, a obra trabalha com dados históricos, linhas cronológicas e tensionamentos críticos sobre os próprios documentos apresentados em cena. Há quem não se agrade com espetáculos mais didáticos, como se explicar processos históricos empobrecesse a experiência artística, muito ao contrário do que pensa essa espectadora que aqui escreve. O ...