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Zelda Fitzgerald: quem escreve a história das mulheres?

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  Durante muito tempo, F. Scott Fitzgerald foi o nome que me vinha à cabeça quando pensava nos Fitzgerald. Zelda Sayre Fitzgerald (1900–1948), sua esposa, escritora, pintora e dançarina, permanecia praticamente desconhecida para mim. E essa constatação me levou a uma pergunta: quanto da história das mulheres artistas ainda desconhecemos porque aprendemos a reconhecê-las a partir dos homens com quem se relacionaram? Foto: João Caldas  Em solo protagonizado pela atriz Larissa da Matta, a trajetória de Zelda Fitzgerald traz à cena as disputas pela autoria feminina, o apagamento histórico e as estruturas que limitaram a liberdade de criação das mulheres. A questão do sobrenome masculino não é irrelevante nessa história. Ao se casarem, muitas mulheres ainda incorporam o nome da família do marido, como se a união também implicasse uma transferência de identidade. É uma tradição que guarda relações com estruturas patriarcais mais antigas, nas quais a identificação das mulheres esteve...

Quando a história não termina: memória, violência e responsabilidade em JARARACA[S]

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  JARARACA[S], do Grupo Pavilhão da Magnólia, pertence a categoria de peças que nos deixam com perguntas reverberando e incomodando por dentro... A experiência do espetáculo gera um arrebatamento, que decorre não apenas da excelência do trabalho cênico, mas da oportunidade de presenciar uma criação voltada a discutir questões fundamentais da sociedade. O grupo realiza esse feito sem recorrer à simplificação, à pretensão de esgotar os assuntos ou à conversão do palco em mero espaço de palestra.   Foto: Tim Oliveira Em um contexto de intensa turbulência política, saturação de discursos e disputas permanentes de narrativas, encontrar espaços de elaboração coletiva, nos quais seja possível cultivar debates que não se contentam com a superfície dos acontecimentos, também constitui uma experiência política. O teatro pode oferecer esse espaço. E JARARACA[S] demonstra como a arte pode abordar temas sensíveis com inteligência, rigor e abertura à contradição, sem subestimar a capac...

Devorando Nelson Rodrigues: A Antropofagia Feminista no Teat(r)o Oficina

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  Há montagens que atualizam um clássico. Outras o ilustram. A encenação de 7 Gatinhos , dirigida por Joana Medeiros no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, escolhe um caminho mais radical: deglute Nelson Rodrigues. A pergunta que me acompanhou durante todo o espetáculo foi justamente esta: a montagem devora a dramaturgia de Nelson Rodrigues ou devora a leitura tradicional que aprendemos a fazer dela? A resposta talvez esteja menos no texto do que nos corpos que o atravessam. O que torna 7 Gatinhos tão potente não é uma atualização do texto. É sua estética. Há uma estética feminista atravessando toda a encenação. E, quando digo isso, não me refiro apenas à presença de mulheres em cena ou a um discurso contra o patriarcado. Refiro-me aos corpos e à maneira como ocupam a cena. São corpos que abrem as pernas, mostram os seios, exibem a vulva, sustentam o olhar da plateia e recusam os códigos de feminilidade que historicamente ensinaram às mulheres a fechar o corpo, diminuir os gestos e cont...

A Asfixia do Capital: Corpo, Gênero e o Não-Humano em Vampyr, de Manuela Infante/ Especial MIRADA - Festival Ibero-americano de Artes Cênicas - Ed. 2026

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  A produção teatral da dramaturga e diretora chilena Manuela Infante tem se consolidado como um dos territórios mais férteis para a investigação da cena contemporânea latino-americana. A própria artista define sua prática como uma espécie de “filosofia encarnada”: o palco deixa de ser apenas lugar de representação e contação de histórias para se transformar em espaço de experimentação física e sensível de conceitos complexos.           É dentro dessa pesquisa em torno do não-humano, que busca descentralizar o sujeito universal, racional e burguês moldado pelo humanismo iluminista, que Vampyr constrói sua força. A peça não se reduz a uma narrativa sobre o horror folclórico do vampirismo. Ao deslocar o Homem Universal do centro, Manuela Infante revela aquilo que ocupa esse lugar nas dinâmicas contemporâneas: o Capital, a exploração sistemática do trabalho e a extração predatória de energia.   A encenação estrutura-se como um falso documentário, em ...

Divórcio: o que ainda precisa ser dito?

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  Confesso que cheguei ao teatro acreditando que assistiria a uma peça densa, marcada quase exclusivamente pela violência contra as mulheres, como a cruel história que atravessou — mas não limitou — a vida de Maria da Penha. Saí do teatro precisando de um tempo para me recolher, pensar, digerir, lidar com lembranças e sensações. Ainda assim, dei boas risadas e fiz conexões importantes durante a apresentação. Divórcio não ameniza a violência. Ao contrário, encontra formas de nos fazer atravessá-la sem nos paralisar. Logo no início, ao acompanharmos a personagem de classe média vivendo seu processo de separação, somos envolvidas pela neblina da dor, da confusão e de uma espécie de "desfuturo" que o divórcio provoca. É uma sensação que ultrapassa a perda. É como estar diante de uma ponte que se rompe ao meio. Para onde ir se já não existe mais o caminho de volta? E qual é o caminho que segue adiante? A solidão dessa mulher, e das outras mulheres que habitam a cena deste espetác...