Sustentar o abismo: sobre Coragem – um lugar melhor do que aqui
Frequentemente, o teatro se debruça sobre o lugar das mulheres na sociedade, insistindo nas possibilidades de força coletiva, de união e de transformação. Mas o que acontece quando esse coletivo adoece? Como lidamos com esse processo em curso, que se faz silencioso, contínuo e profundamente enraizado nas estruturas que nos atravessam? Quais são, então, as consequências do descaso e do abandono sistemático desses corpos? É nesse campo de tensão que a DeSúbito Cia., ao longo da trilogia Afeto, Raiva e Coragem , deixa de formular perguntas para levar ao limite as reações de mulheres que sustentam o abismo em si e na forma como ele reverbera socialmente. Algumas vezes retratadas como vencedoras, outras apenas como sobreviventes, essas mulheres existem no limiar. É neste limiar que o espetáculo Coragem – um lugar melhor do que aqui inscreve-se como um gesto crítico que recusa a leitura simplista do colapso como atributo individual das mulheres. O que se desenha em cena é um proces...