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A Estética da Saudade

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  Saindo do Sesc Santana, segue-se pela Av. Luiz Dumont Villares, Avenida Nova para os íntimos, rumo à Avenida Zaki Narchi. Onde hoje existe um posto de gasolina, na esquina com a Rua Jacuna, atravessa-se a rua e vira-se a terceira à direita, na Guaracininga. Foi ali que passei parte da infância: jogos improvisados na rua, brincadeiras que transformavam qualquer pedaço de concreto em território imaginário, amizades que o tempo afastou da convivência cotidiana, mas que seguem vivas em alguma região do afeto e, às vezes, do Instagram. Não morando mais naquele bairro, percebo que retornar àquela região produz uma espécie de nostalgia geográfica. Antes mesmo de entrar no teatro, meu corpo já estava implicado emocionalmente por uma memória espacial. Talvez por isso Saudade , espetáculo do grupo Os Geraldos, tenha me atravessado desde o início: não apenas pelo tema da infância, mas pela forma como a peça transforma lembrança individual em memória coletiva encenada. As brincadeiras aprese...

Do fio d’água ao transbordamento - A Força da Água

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  O coletivo cearense Grupo Pavilhão da Magnólia presenteou o público paulistano com o espetáculo a Força da Água , que realizou uma curta temporada no Sesc Paulista.  A obra parte de uma pergunta que parece simples, mas que organiza toda a força política do espetáculo: e se a seca não for uma fatalidade da natureza, mas consequência de decisões históricas, econômicas e políticas? A partir dessa perspectiva, a peça constrói um percurso documental que revisita diferentes momentos da história do Ceará, articulando documentos oficiais, relatos, humor e teatralidade para desmontar a naturalização da escassez de água no Brasil. Assumidamente documental, a obra trabalha com dados históricos, linhas cronológicas e tensionamentos críticos sobre os próprios documentos apresentados em cena. Há quem não se agrade com espetáculos mais didáticos, como se explicar processos históricos empobrecesse a experiência artística, muito ao contrário do que pensa essa espectadora que aqui escreve. O ...

Quando falamos de infância: escuta e endereçamento em Planeta Pelúcia

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Entre o tecido macio da fantasia e a engrenagem áspera do mundo adulto, Planeta Pelúcia constrói uma travessia que parece oscilar entre dois endereçamentos: a infância que deseja e o adulto que recorda. Há, na dramaturgia de Bruno Canabarro e na direção de Rodolfo Amorim, um esforço visível de dialogar com ambos. A partir da experiência desta espectadora, compartilhada com uma criança, evidencia-se um descompasso sutil, porém significativo: enquanto o espetáculo convida o público adulto a revisitar suas próprias perdas, com esse desejo recorrente de “manter viva a criança interior”, a criança espectadora nem sempre encontra mediações suficientes para elaborar os códigos propostos em cena. A trajetória de Pati, menina que anseia crescer para ser vista e ouvida, toca em um impulso reconhecível: o desejo de atravessar fronteiras interditadas. No entanto, o modo como o desejo da criança se constrói em cena já parece atravessado por uma lógica adulta. É como se, antes mesmo da experiência,...

Sustentar o abismo: sobre Coragem – um lugar melhor do que aqui

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Frequentemente, o teatro se debruça sobre o lugar das mulheres na sociedade, insistindo nas possibilidades de força coletiva, de união e de transformação. Mas o que acontece quando esse coletivo adoece? Como lidamos com esse processo em curso, que se faz silencioso, contínuo e profundamente enraizado nas estruturas que nos atravessam? Quais são, então, as consequências do descaso e do abandono sistemático desses corpos? É nesse campo de tensão que a DeSúbito Cia., ao longo da trilogia Afeto, Raiva e Coragem , deixa de formular perguntas para levar ao limite as reações de mulheres que sustentam o abismo em si e na forma como ele reverbera socialmente. Algumas vezes retratadas como vencedoras, outras apenas como sobreviventes, essas mulheres existem no limiar.  É neste limiar que o espetáculo Coragem – um lugar melhor do que aqui inscreve-se como um gesto crítico que recusa a leitura simplista do colapso como atributo individual das mulheres. O que se desenha em cena é um proces...

RUA: Entre o ritmo e a travessia

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  Com uma ficha técnica que reúne nomes de destaque e um forte investimento na dimensão sensorial da cena, RUA , com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Eugenio Lima, se constrói como um espetáculo em que música, dança e visualidade para além de acompanhar a ação, são sua própria engrenagem dramatúrgica. Há um pulso contínuo que atravessa o trabalho e que se ancora, sobretudo, na experiência do corpo: o desejo de dançar, de repetir os gestos, de entrar em relação com aquilo que se vê. Essa dimensão não é acessória. Ao contrário, parece ser a principal aposta da encenação. Embora a narrativa apresente a desigualdade social como ponto de partida, a peça opta por não aprofundá-la em chave analítica, mas por mantê-la como horizonte de fundo, como  uma presença que organiza o espaço, mas não tensiona diretamente a ação. A rua, nesse sentido, opera mais como imagem do que como conflito: lugar de encontro, de brincadeira, de atravessamento possível. Foto: Rafa Américo O deslo...