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Ajustar o mundo: cuidado, gênero e normalidade em PRISMA – eu sou assim

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  Foto: Caca Bernardes Em cartaz no Sesc Consolação, PRISMA – eu sou assim , com dramaturgia de Marcelo Romagnoli e direção de Cris Lozano, propõe uma operação delicada: encenar o autismo a partir da experiência sensível de uma menina, sem transformá-lo em tese pedagógica nem em alegoria excessivamente intelectualizada. A ambientação no cérebro da protagonista poderia facilmente escorregar para o didatismo ou para o virtuosismo formal. No entanto, a encenação aposta em um lúdico comedidamente construído. Não há simplificação condescendente, tampouco densidade simbólica que afaste o público infantil. O que emerge é uma dramaturgia que confia na inteligência da criança e na capacidade do teatro de tornar visível o que não é imediatamente perceptível. A encenação também recorre a imagens simbólicas discretas. No início, o elenco formado por Amanda Nascimento, Alessandro Hernandez e pela protagonista e idealizadora do projeto, Tertulina Alves surge com diferentes aparatos na cabeça...

Breves notas sobre Medeia, o tempo e a permanência

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  Foto: João Caldas Em um momento em que a cena teatral frequentemente se deixa atravessar por dispositivos e mediações tecnológicas, a escolha de encenar Séneca com centralidade na palavra, na atuação e na construção plástica do espaço é uma ousadia feliz. A direção de Gabriel Villela aposta no rigor do texto e confia que sua densidade ainda pode nos afetar. Séneca é retórico, expansivo, por vezes vertiginoso. Há sempre o risco de que a força discursiva se transforme em excesso ou cansaço. Não é o que ocorre aqui. A atuação trabalha tecnicamente a palavra: respiração, ritmo e intenção mantêm a escuta ativa ao longo da progressão trágica. O texto não é engessado nem engolido; é elaborado em cena. O resultado é uma experiência atenta, sem verborragia gratuita. A cenografia chama atenção de imediato. Delicada e monumental, organiza as marcações com dinamismo e eficácia traduzindo uma estruturação do movimento que fornece energia para a cena. A luz, a musicalidade e a trilha sonora in...

Dentro do ônibus, a cidade respira

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  Foto: Leandro Souzza De dentro do ônibus observamos a vida passar. Observamos a rua, as pessoas, as reações. Somos quase um olho invisível na grande cidade. Amontoadas, oprimidas social e corporalmente. Às vezes, de dentro do ônibus, observamos a nós. Pensamos no preço do café, na vontade de descansar, na luta contra o sono. Temos lembranças, vontade de chorar, de rir sozinha... O transporte acaba sendo mais que uma forma de condução. É um tempo-espaço nos levando de lugar em lugar, ida e volta. Passamos tanto tempo dentro, que esquecemos, às vezes, como poderia ser estar fora. O tempo vai se acumulando em passagens e histórias. A peça TrabalhaDORES , da Zózima Trupe , parte justamente desse território cotidiano — o ônibus — para transformar o que é banal em manifesto. O espetáculo exalta as dores e também as pequenas alegrias da vida de passageiras e passageiros do transporte público, lembrando que esses corpos moveram a cidade mesmo quando o mundo parou por conta da COVID-19. A...