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Quando falamos de infância: escuta e endereçamento em Planeta Pelúcia

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Entre o tecido macio da fantasia e a engrenagem áspera do mundo adulto, Planeta Pelúcia constrói uma travessia que parece oscilar entre dois endereçamentos: a infância que deseja e o adulto que recorda. Há, na dramaturgia de Bruno Canabarro e na direção de Rodolfo Amorim, um esforço visível de dialogar com ambos. Assistida ao lado de uma criança, a experiência evidencia um descompasso sutil, porém significativo: enquanto o espetáculo convida o público adulto a revisitar suas próprias perdas, com esse desejo recorrente de “manter viva a criança interior”, a criança espectadora nem sempre encontra mediações suficientes para elaborar os códigos propostos em cena. A trajetória de Pati, menina que anseia crescer para ser vista e ouvida, toca em um impulso reconhecível: o desejo de atravessar fronteiras interditadas. No entanto, esse desejo surge já atravessado por uma lógica adulta de reconhecimento e pertencimento, como se a infância ali encenada estivesse previamente informada pelas estr...

Sustentar o abismo: sobre Coragem – um lugar melhor do que aqui

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Frequentemente, o teatro se debruça sobre o lugar das mulheres na sociedade, insistindo nas possibilidades de força coletiva, de união e de transformação. Mas o que acontece quando esse coletivo adoece? Como lidamos com esse processo em curso, que se faz silencioso, contínuo e profundamente enraizado nas estruturas que nos atravessam? Quais são, então, as consequências do descaso e do abandono sistemático desses corpos? É nesse campo de tensão que a DeSúbito Cia., ao longo da trilogia Afeto, Raiva e Coragem , deixa de formular perguntas para levar ao limite as reações de mulheres que sustentam o abismo em si e na forma como ele reverbera socialmente. Algumas vezes retratadas como vencedoras, outras apenas como sobreviventes, essas mulheres existem no limiar.  É neste limiar que o espetáculo Coragem – um lugar melhor do que aqui inscreve-se como um gesto crítico que recusa a leitura simplista do colapso como atributo individual das mulheres. O que se desenha em cena é um proces...

RUA: Entre o ritmo e a travessia

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  Com uma ficha técnica que reúne nomes de destaque e um forte investimento na dimensão sensorial da cena, RUA , com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Eugenio Lima, se constrói como um espetáculo em que música, dança e visualidade para além de acompanhar a ação, são sua própria engrenagem dramatúrgica. Há um pulso contínuo que atravessa o trabalho e que se ancora, sobretudo, na experiência do corpo: o desejo de dançar, de repetir os gestos, de entrar em relação com aquilo que se vê. Essa dimensão não é acessória. Ao contrário, parece ser a principal aposta da encenação. Embora a narrativa apresente a desigualdade social como ponto de partida, a peça opta por não aprofundá-la em chave analítica, mas por mantê-la como horizonte de fundo, como  uma presença que organiza o espaço, mas não tensiona diretamente a ação. A rua, nesse sentido, opera mais como imagem do que como conflito: lugar de encontro, de brincadeira, de atravessamento possível. Foto: Rafa Américo O deslo...

Ajustar o mundo: cuidado, gênero e normalidade em PRISMA – eu sou assim

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  Foto: Caca Bernardes Em cartaz no Sesc Consolação, PRISMA – eu sou assim , com dramaturgia de Marcelo Romagnoli e direção de Cris Lozano, propõe uma operação delicada: encenar o autismo a partir da experiência sensível de uma menina, sem transformá-lo em tese pedagógica nem em alegoria excessivamente intelectualizada. A ambientação no cérebro da protagonista poderia facilmente escorregar para o didatismo ou para o virtuosismo formal. No entanto, a encenação aposta em um lúdico comedidamente construído. Não há simplificação condescendente, tampouco densidade simbólica que afaste o público infantil. O que emerge é uma dramaturgia que confia na inteligência da criança e na capacidade do teatro de tornar visível o que não é imediatamente perceptível. A encenação também recorre a imagens simbólicas discretas. No início, o elenco formado por Amanda Nascimento, Alessandro Hernandez e pela idealizadora do projeto, Tertulina Alves surge com diferentes aparatos na cabeça, como uma espé...

Breves notas sobre Medeia, o tempo e a permanência

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  Foto: João Caldas Em um momento em que a cena teatral frequentemente se deixa atravessar por dispositivos e mediações tecnológicas, a escolha de encenar Séneca com centralidade na palavra, na atuação e na construção plástica do espaço é uma ousadia feliz. A direção de Gabriel Villela aposta no rigor do texto e confia que sua densidade ainda pode nos afetar. Séneca é retórico, expansivo, por vezes vertiginoso. Há sempre o risco de que a força discursiva se transforme em excesso ou cansaço. Não é o que ocorre aqui. A atuação trabalha tecnicamente a palavra: respiração, ritmo e intenção mantêm a escuta ativa ao longo da progressão trágica. O texto não é engessado nem engolido; é elaborado em cena. O resultado é uma experiência atenta, sem verborragia gratuita. A cenografia chama atenção de imediato. Delicada e monumental, organiza as marcações com dinamismo e eficácia traduzindo uma estruturação do movimento que fornece energia para a cena. A luz, a musicalidade e a trilha sonora in...