Quando a história não termina: memória, violência e responsabilidade em JARARACA[S]

 

JARARACA[S], do Grupo Pavilhão da Magnólia, pertence a categoria de peças que nos deixam com perguntas reverberando e incomodando por dentro... A experiência do espetáculo gera um arrebatamento, que decorre não apenas da excelência do trabalho cênico, mas da oportunidade de presenciar uma criação voltada a discutir questões fundamentais da sociedade. O grupo realiza esse feito sem recorrer à simplificação, à pretensão de esgotar os assuntos ou à conversão do palco em mero espaço de palestra.  

Foto: Tim Oliveira


Em um contexto de intensa turbulência política, saturação de discursos e disputas permanentes de narrativas, encontrar espaços de elaboração coletiva, nos quais seja possível cultivar debates que não se contentam com a superfície dos acontecimentos, também constitui uma experiência política. O teatro pode oferecer esse espaço. E JARARACA[S] demonstra como a arte pode abordar temas sensíveis com inteligência, rigor e abertura à contradição, sem subestimar a capacidade crítica de quem está na plateia.

A montagem que tem dramaturgia de Giordano Castro ,  parte dos últimos dias de José Leite de Santana, conhecido como Jararaca, integrante do bando de Lampião, capturado e assassinado pela polícia em 1927, após a tentativa de invasão de Mossoró. Décadas depois, sua figura passa a ocupar outro lugar na memória popular, sendo reverenciada como santo em sua cidade. Entre o cangaceiro perseguido e o santo popular, a trajetória de Jararaca evidencia a instabilidade das narrativas históricas e os mecanismos pelos quais determinadas vidas são classificadas, lembradas, apagadas ou transformadas em mito.

Jararaca, entretanto, não permanece restrito à condição de personagem histórico. Sua trajetória funciona como metáfora para pensar os mecanismos de apagamento promovidos pelo Estado, tanto em sua dimensão literal, por meio da eliminação de corpos, quanto na dimensão simbólica, pela produção de esquecimentos e pelo controle das narrativas sobre aqueles que foram mortos. É nesse movimento que a montagem aproxima sua história da de Marielle Franco e de outras figuras da sociedade brasileira cujas mortes e trajetórias continuam atravessadas por disputas políticas e pela luta por presença e reconhecimento.

Essa aproximação nos permite perguntar quais vidas são consideradas descartáveis, quais mortes mobilizam a memória coletiva e quais desaparecem sob o peso das versões oficiais. A pergunta sobre quem mandou matar Jararaca e quem mandou matar Marielle desloca o olhar da individualidade dos assassinatos para as estruturas de poder que tornam determinadas violências possíveis.

O corpo como lugar do desconforto 

Um dos aspectos mais interessantes da encenação  está na maneira como a direção de Murillo Ramos organiza os elementos cênicos e conduz uma progressão de pensamentos. Música, ruídos, rinha de galos, comida e ações corporais são apresentados em uma composição na qual os elementos, inicialmente percebidos em suas particularidades, passam gradualmente a estabelecer relações e produzir novos sentidos, construindo uma experiência na qual a percepção do público também participa da elaboração dramatúrgica.

Nesta seara, a música e a sonoridade contribuem continuamente para a construção de atmosferas e tensões. Essa dinâmica ganha contornos específicos nas ações envolvendo o alimento: se, no início da cena, as pessoas atuantes recebem o público comendo cuscuz, compartilhando hábitos e apresentando criticamente elementos que orbitam a "identidade nordestina", o desdobramento da ação introduz uma dimensão particularmente incômoda. As pessoas atuantes passam a comer de maneira compartilhada e a conversar enquanto mastigam, explorando uma relação com a comida que se afasta deliberadamente de qualquer idealização estética. Há algo de impuro, excessivo e grotesco nessa composição, onde o alimento deixa de ser uma imagem de prazer ou comunhão idealizada e passa a integrar um universo atravessado pela violência e pelo desconforto.

Essa violência atinge seu ápice quando a comida é introduzida à força na boca de outro corpo, configurando uma nítida situação de tortura. A ação provoca repulsa imediata e evidencia a violência inscrita no próprio gesto de alimentar. O que deveria remeter ao cuidado e à manutenção da vida é transfigurado em instrumento de agressão. Com isso, a cena mobiliza uma contradição corporal profunda, que recusa qualquer tentativa de interpretação confortável. 

A rinha de galos também integra esse campo de imagens desconcertantes. O desconforto não está apenas naquilo que é representado, mas na posição de quem assiste. Não somos os corpos submetidos àquela violência, mas tampouco conseguimos permanecer completamente indiferentes diante dela. Existe uma distância física entre a cena e a plateia, mas a experiência estética rompe parcialmente essa proteção.

Penso que esse incômodo tem uma função importante na montagem. Diante de assassinatos, torturas e violências de Estado, a naturalização pode ser tão perigosa quanto o esquecimento. Há imagens que precisam nos desorganizar, produzir espanto e interromper a indiferença. O teatro encontra, nessa mobilização sensorial, uma possibilidade de aproximar a experiência de quem assiste daquilo que, muitas vezes, permanece distante nas narrativas históricas e nos discursos públicos.

Entre o Nordeste e a disputa pela memória

A perspectiva decolonial atravessa a montagem especialmente na maneira como ela aborda o cangaço e os imaginários construídos sobre o Nordeste. O espetáculo não parece interessado em reproduzir uma imagem folclorizada do sertão, tampouco em reafirmar estereótipos que historicamente reduziram a região à seca, à violência, ao atraso ou ao exotismo. Ao revisitar a trajetória de Jararaca, o Grupo Pavilhão da Magnólia reivindica a complexidade de uma história que não pode ser compreendida apenas pelas classificações produzidas pelos discursos oficiais.

Essa escolha ganha importância quando consideramos quem produz a narrativa. Um grupo cearense que se debruça sobre uma história nordestina não precisa reivindicar uma autenticidade regional como garantia de legitimidade. Sua potência está no modo como constrói uma perspectiva própria, sem transformar a origem geográfica em folclore ou em marca de diferenciação exótica. O trabalho articula memória, linguagem e criação cênica sem subordinar a complexidade da experiência histórica a representações já consolidadas sobre o Nordeste.

Também chama atenção a qualidade do trabalho do elenco, formado por Silvianne Lima, Jota Junior Santos, Nelson Albuquerque e rudriquix . Há uma precisão corporal e vocal que sustenta a composição, uma harmonia entre as pessoas em cena e uma capacidade de transitar por diferentes registros de atuação sem perder a unidade do espetáculo. A presença cênica é vigorosa, e o domínio dos recursos expressivos revela um trabalho de preparação e elaboração coletiva bastante consistente. É uma atuação que merece reconhecimento não apenas pela execução técnica, mas pela maneira como os corpos participam da construção dos sentidos da montagem.


Foto: Tim Oliveira


O final que não termina

Se existe um momento que sintetiza a inteligência dramatúrgica de JARARACA[S], ele está em seu falso final.

A peça efetivamente termina. O elenco recebe os aplausos, inicia os agradecimentos e a plateia reconhece aquele momento como o encerramento convencional de uma apresentação teatral. É então que surge a lembrança de outro personagem que não havia sido mencionado. A partir dessa ausência, a montagem explicita algo que atravessa todo o espetáculo: não será possível falar de todas as pessoas, recuperar todas as histórias ou contemplar todas as versões de um acontecimento.

Nem o espetáculo, nem os livros de história, nem qualquer narrativa isolada conseguirão dar conta de tudo. A memória é uma construção permanente, que exige continuidade, revisão e responsabilidade. Sem a pretensão de resolver essa tarefa durante os minutos de uma apresentação, mas de compreender que ela precisa ser assumida cotidianamente.

A escolha de utilizar o próprio ritual de encerramento teatral para introduzir essa reflexão é particularmente feliz. O público acredita que a experiência acabou, mas a encenação reabre aquilo que parecia concluído. A interrupção da expectativa produz uma espécie de segundo movimento do espetáculo: depois de acompanhar uma narrativa sobre apagamento e memória, a plateia é confrontada com os limites daquilo que acabou de assistir.

O falso final produz uma sensação de encerramento sem oferecer um encerramento efetivo. É como se a montagem construísse um pequeno fim do mundo, mas recusasse a ideia de que o mundo possa terminar ali. Ainda há histórias a serem contadas, nomes a serem lembrados, responsabilidades a serem assumidas. E, diante disso, a pergunta deixa de pertencer exclusivamente aos personagens e à história: o que fazemos com aquilo que acabamos de ver?

Com isso, o espetáculo não reivindica para si a capacidade de representar todas as experiências, nem transforma sua abordagem em uma explicação definitiva sobre a violência brasileira. Ao reconhecer seus próprios limites, abre espaço para que outras narrativas existam e para que o público perceba que a disputa pela memória não termina quando se apagam as luzes.

A memória é uma prática coletiva, cotidiana e política. Jararaca[s] nos faz esse convite: continuar olhando, perguntando, discutindo e disputando aquilo que não podemos permitir que seja esquecido.


Ficha Técnica

Concepção e Criação: Grupo Pavilhão da Magnólia

Dramaturgia: Giordano Castro

Direção: Murillo Ramos

Elenco: Silvianne Lima, Jota Junior Santos, Nelson Albuquerque e rudriquix

Trilha Sonora e Performance: rudriquix

Música "Sete": Murillo Ramos

Música "Imã": Ednardo

Música "Quem é ele": Betto Douglas e Fernando Santos

Preparação Vocal: Thiago Nunes

Iluminação: Wallace Rios

Direção de Movimento: Clarissa Costa e Eder Soares

Direção de Arte, Objetos Cênicos e Vídeo: Daniel Torres

Cenografia: Rodrigo Frota

Figurinos: Themis Memória

Fotos: Tim Oliveira

Vídeos: Allan Diniz

Identidade Visual: Renan Costa Lima

Colaboração na Pesquisa: A Máscara de Teatro (Mossoró/RN)

Coordenação de Produção: Som e Fúria

Produção Executiva: Silvianne Lima e Jota Junior Santos

Apoio: Casa Absurda e Itaú Cultural

Co-produção: Hub Cultural Porto Dragão


SERVIÇO

JARARACA[S] – Grupo Pavilhão da Magnólia

De 15/10 a 08/11

Quinta a sábado, às 20h e domingo, às 19h

TUSP MARIA ANTÔNIA - Rua. Maria Antônia, 294 - Vila Buarque, São Paulo - SP

Classificação: 16 anos | Capacidade: 100 lugares | Duração: 90 min | Gratuito 

https://usp.br/tusp/em-cartaz/ https://www.instagram.com/tusp.teatrodausp/ 


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