Dentro do ônibus, a cidade respira
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| Foto: Leandro Souzza |
De dentro do ônibus observamos a vida passar. Observamos a rua, as pessoas, as reações. Somos quase um olho invisível na grande cidade. Amontoadas, oprimidas social e corporalmente. Às vezes, de dentro do ônibus, observamos a nós. Pensamos no preço do café, na vontade de descansar, na luta contra o sono. Temos lembranças, vontade de chorar, de rir sozinha... O transporte acaba sendo mais que uma forma de condução. É um tempo-espaço nos levando de lugar em lugar, ida e volta. Passamos tanto tempo dentro, que esquecemos, às vezes, como poderia ser estar fora. O tempo vai se acumulando em passagens e histórias.
A peça TrabalhaDORES, da Zózima Trupe, parte justamente desse território cotidiano — o ônibus — para transformar o que é banal em manifesto. O espetáculo exalta as dores e também as pequenas alegrias da vida de passageiras e passageiros do transporte público, lembrando que esses corpos moveram a cidade mesmo quando o mundo parou por conta da COVID-19. Ao relembrar que motoristas e cobradores foram as grandes vítimas e que não receberam prioridades na pandemia, a peça convoca uma memória coletiva de resistência.
A encenação se entrega com força quase desmedida: cada gesto, cada efeito sonoro e visual parece querer ocupar cada centímetro do espaço, como se a cidade inteira estivesse comprimida dentro do ônibus. A fumaça, o calor e o ritmo frenético nos lembram que os corpos do transporte público já vivem um espaço sobrecarregado, onde tudo é comprimido, e é precisamente esse excesso que dá densidade à peça, mas também nos convida a pensar em como a arte dialoga com o espaço e com a intimidade do corpo da espectadora.
A escolha do ônibus como espaço cênico vai além do óbvio do espaço físico em movimento. O que ele traz de diferente de um palco tradicional é a proximidade quase íntima com os corpos da cidade — passageiros, motoristas, cobradores — e a sensação de compartilhar trajetórias reais com esses corpos que normalmente passam despercebidos. No ônibus, cada parada, cada curva, cada frenagem entra na dramaturgia como um elemento imprevisível que nenhum palco poderia reproduzir. A encenação dialoga com esse movimento, criando uma coreografia que precisa se adaptar a um corpo coletivo em trânsito. O espaço compacto força uma intensidade diferente na atuação, uma escuta mais sensível entre os intérpretes e as espectadoras, e um cuidado com o olhar que aproxima a experiência teatral da vivência cotidiana. Quando o ônibus começa a se deslocar pelas ruas, movimento inesperado, esta ação rasga o limite entre cena e cidade e neste momento, o público se multiplica, a rua observa de volta, e o teatro se espalha pelo asfalto.
O que torna TrabalhaDORES singular, porém, não é apenas essa adaptação ao espaço. É a dimensão da pesquisa que atravessa o processo: a escuta atenta aos depoimentos, o cuidado com o luto, o tempo dedicado à reflexão, que transforma a experiência em um gesto coletivo de cuidado e memória. O espetáculo lembra que a vida cotidiana e o trabalho da cidade, especialmente o daqueles corpos que a sustentam invisivelmente, merecem visibilidade, respeito e celebração.
Ainda que a encenação seja intensa, o gesto político permanece atento: transformar o transporte público em palco, transformar passageiras em espectadoras, enquanto coloca espectadoras no lugar de passageiras, lembrando que há coragem e beleza nos que mantêm o motor do mundo aceso. Entre o barulho do trânsito e das ruas do centro da cidade de São Paulo, TrabalhaDORES nos faz pensar sobre o custo de seguir — e sobre quem, afinal, faz a cidade seguir.
Ficha Técnica
com Zózima Trupe
Encenação e dramaturgia - Anderson Maurício
Direção musical - Rodrigo Régis e Cristiane Mesquita
Direção de arte - Letícia RMS
Textos - Marcelino Freire, Ermínia Maricato e Nabil Bonduki
Canções - Cleide Amorim, Priscila Reis e Zózima Trupe
Artistas pesquisadores - Anderson Maurício, Cleide Amorim, Junior Docini, Priscila Reis e Tatiane Lustoza
Cantores convidados - Cristiane Mesquita e Marcello Mesquita
Percussão - Denis Lisboa
Sintetizadores e sonoplastia - Pero Manzé
Vídeo mapping - Vj Soma e Letícia RMS
Conteúdo de vídeo - Leonardo Souzza e Letícia RMS
Iluminação - Junior Docini
Cenografia e figurino - Verônica Elvira Kobus e Letícia RMS
Preparação vocal - Cristiane Mesquita e Marcello Mesquita
Preparação corporal - Felipe Teixeira
Operador de luz - Rafael Inácio
Operador de som - Pedro Moura
Motorista - Wharley Frazão
Designer - Nando Motta
Produção geral - Tatiane Lustoza
Produção - Brenda Rebeka e Maytê Costa
Fotografia - Leonardo Souzza
Adereços cenográfico - Deoclecio Alexandre
Maquiagem - Janaina Meireles
Parceiros de pesquisa - Eduardo Pizarro, Paulo Akio, Ma Devi Murti, Silvia Oliveira, Victor Nóvoa, Gabriel Neistein, Leopold Nosek, Maria Rita Kehl, Claudia Barral, Marcela Boni, Nabil Bonduki, Erminia Marcato, Rodrigo Campos e Marcelino Freire
Assessoria de imprensa - Canal Aberto - Marcia Marques, Daniele Valério e Marina Franco
Apoio de produção - Iara Nazario, Samyra Keller e Kauã Ferreira
Apoio na maquiagem - Wallace Stravinskas
SERVIÇO:
TrabalhaDORES
Duração: 90 minutos | Classificação: 12 anos | Capacidade: 20 pessoas
PRAÇA FRANKLIN ROOSEVELT
Data: 10, 11, 17, 18, 24, 25 e 26 de outubro, às 19h30
Endereço: Praça Franklin Roosevelt s/n - Bela Vista, São Paulo
Ingresso: gratuito
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