Ajustar o mundo: cuidado, gênero e normalidade em PRISMA – eu sou assim

 

Foto: Caca Bernardes


Em cartaz no Sesc Consolação, PRISMA – eu sou assim, com dramaturgia de Marcelo Romagnoli e direção de Cris Lozano, propõe uma operação delicada: encenar o autismo a partir da experiência sensível de uma menina, sem transformá-lo em tese pedagógica nem em alegoria excessivamente intelectualizada.

A ambientação no cérebro da protagonista poderia facilmente escorregar para o didatismo ou para o virtuosismo formal. No entanto, a encenação aposta em um lúdico comedidamente construído. Não há simplificação condescendente, tampouco densidade simbólica que afaste o público infantil. O que emerge é uma dramaturgia que confia na inteligência da criança e na capacidade do teatro de tornar visível o que não é imediatamente perceptível.

A encenação também recorre a imagens simbólicas discretas. No início, o elenco formado por Amanda Nascimento, Alessandro Hernandez e pela protagonista e idealizadora do projeto, Tertulina Alves surge com diferentes aparatos na cabeça, como uma espécie de proteção usada por apicultores ou um capacete que remete ao imaginário espacial, sugerindo que cada personagem percebe o mundo a partir de um campo sensorial próprio. Ao longo da peça, outras figuras atravessam a imaginação da protagonista, como o diálogo com uma tartaruga ou imagens que evocam processos mentais, compondo um vocabulário poético que traduz, sem excesso de explicação, sua experiência interna.

Com isso, um dos aspectos mais significativos da montagem está nas adaptações técnicas que trabalham na contenção dos estímulos, a atenção à luz e ao som, que, de forma discreta, operam como recursos de acessibilidade; tornando-se linguagem cênica. A forma encena o tema. A experiência sensorial da protagonista não é densamente explicada: é sugerida, compartilhada, construída na própria materialidade da cena. Há aqui uma ética da representação que merece destaque.

Contudo, é na organização familiar que o espetáculo ganha espessura crítica no olhar desta espectadora. A sobrecarga materna aparece sem grandiloquência, mas com nitidez. A mãe é quem percebe, insiste, tensiona; o pai, inicialmente, minimiza, adia, normaliza. A peça não caricatura essa dinâmica, mas tampouco a neutraliza. Ela a apresenta como parte de uma engrenagem social amplamente reconhecível: o cuidado como trabalho feminino, invisibilizado e naturalizado.

Nesse sentido, o desenrolar da relação entre os pais da protagonista não é tratado como clímax dramático nem como fracasso moral. Surge como mais uma narrativa possível dentro da história, uma reorganização necessária diante da assimetria persistente. Ao não sobrepor esse desenlace à trajetória da menina, a obra evita capturar a experiência feminina na chave sacrificial. A mãe não é heroína trágica; é sujeito que decide.

Essa escolha dramatúrgica desloca o eixo da excepcionalidade. O autismo não é apresentado como algo a ser corrigido, mas como modo de perceber e habitar o mundo. A pergunta implícita que atravessa a encenação não é “como ajustar a menina?”, mas “até que ponto o mundo está disposto a se ajustar?”.

A opção por uma protagonista mulher, também autista, tensiona uma invisibilidade histórica: o diagnóstico tardio em mulheres, frequentemente associado à expectativa social de que meninas aprendam a camuflar comportamentos para se adequar. 

Importa notar que o espetáculo opta ainda por uma política da delicadeza em vez de uma política do confronto, fazendo com que a peça não se restrinja a um público especializado. Ao contrário, sua potência reside na capacidade de ampliar o campo de reconhecimento social. Não se trata apenas de oferecer identificação a familiares ou profissionais, mas de interpelar a coletividade. A sutileza da representação, percebida inclusive por crianças que convivem com colegas autistas, indica que a obra evita tanto a caricatura quanto a estetização excessiva da diferença. 

PRISMA – eu sou assim insere-se, então, em um campo de produção que compreende o teatro infantil como espaço de elaboração social. Ao encenar a diferença sem espetacularizá-la e ao tornar visível a divisão de gênero no trabalho do cuidado, o espetáculo contribui para uma pedagogia do olhar que pode começar na infância, mas não se limita a ela.



 


Ficha Técnica:
Idealização: Tertulina Alves
Dramaturgia: Marcelo Romagnoli
Direção artística: Cris Lozano
Elenco: Amanda Nascimento, Alessandro Hernandez e Tertulina Alves
Trilha sonora original: Camila Couto
Cenário e luz: Marisa Bentivegna
Figurino: Chris Aizner
Direção de movimento: Ana Paula Lopez
Preparação de movimento: Leticia Sekito
Criação e confecção de boneco: Marco Lima
Consultoria de Acessibilidade e inclusão: Cris Muñoz
Adereços: Jorge Luiz Alves
Cenotecnia: Edilson Quina
Costura: Judite Lima
Operação de luz: Marina Gatti
Operação de som: Camila Couto
Microfonista: Pedro Semeghini
Ilustrador: Bruno Urbanavicius
Identidade visual: Andrea Pedro
Mídias sociais: Flávio Petins
Assessoria de Imprensa: Canal Aberto - Márcia Marques, Daniele Valério e Flávia Fontes
Produção: Corpo Rastreado - Leticia Alves

Serviço:
Espetáculo infantil: PRISMA – eu sou assim
Temporada:  17/1 a 14/3/2025.
Horários: Sábados, às 11h.
Local: Teatro Anchieta (280 lugares) – Sesc Consolação - R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo - SP, 01222-020
Duração: 60 minutos
Classificação: Recomendado para crianças a partir de 6 anos.
Ingressos: R$40 (inteira) / R$20 (meia) / R$12 (credencial plena). Gratuidade para crianças até 12 anos.
Venda on-line a partir de 06/01 (terça), às 17h, em centralrelacionamento.sescsp.org.br  e no App Credencial Sesc SP
Venda presencial a partir de 07/01, às 17h, nas bilheterias do Sesc São Paulo.  

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