Devorando Nelson Rodrigues: A Antropofagia Feminista no Teat(r)o Oficina

 Há montagens que atualizam um clássico. Outras o ilustram. A encenação de 7 Gatinhos, dirigida por Joana Medeiros no Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, escolhe um caminho mais radical: deglute Nelson Rodrigues.





A pergunta que me acompanhou durante todo o espetáculo foi justamente esta: a montagem devora a dramaturgia de Nelson Rodrigues ou devora a leitura tradicional que aprendemos a fazer dela? A resposta talvez esteja menos no texto do que nos corpos que o atravessam.

O que torna 7 Gatinhos tão potente não é uma atualização do texto. É sua estética. Há uma estética feminista atravessando toda a encenação. E, quando digo isso, não me refiro apenas à presença de mulheres em cena ou a um discurso contra o patriarcado. Refiro-me aos corpos e à maneira como ocupam a cena. São corpos que abrem as pernas, mostram os seios, exibem a vulva, sustentam o olhar da plateia e recusam os códigos de feminilidade que historicamente ensinaram às mulheres a fechar o corpo, diminuir os gestos e controlar a própria presença. Falando em teatro, somos ensinadas, a partir dos grandes cânones teatrais, que devemos atuar de maneira "neutra" e que, caso não haja virtuosismo na técnica de atuação, a qualidade do trabalho é invalidada.

Durante séculos, esses gestos foram autorizados apenas aos homens. Nesta montagem, eles são apropriados, deslocados e reinventados. Não para inverter uma hierarquia, mas para desmontá-la. É impossível assistir a essa operação sem perceber que ela altera profundamente a experiência de quem assiste.

Sem promover grandes alterações dramatúrgicas, a montagem desloca profundamente o modo como a obra é percebida. O texto permanece quase intacto, mas a encenação produz uma mudança de perspectiva suficiente para reorganizar suas forças. A violência continua ali. O patriarcado continua ali. As relações de poder permanecem. Mas o olhar já não pertence aos mesmos sujeitos.

Em vez de corrigir Nelson ou esconder suas contradições, a montagem faz aquilo que o próprio Oficina sempre soube fazer: deglute. Incorpora. Metaboliza. Devolve transformado.

Essa operação parece dialogar diretamente com a tradição antropofágica que constitui a história do Oficina. Não se trata de rejeitar Nelson Rodrigues, de suavizar suas contradições ou de corrigi-lo moralmente. Trata-se de incorporá-lo e devolvê-lo transformado. A dramaturgia permanece reconhecível, mas seus sentidos são rearranjados por uma estética que desloca o centro da experiência para corpos historicamente colocados à margem. É nesse ponto que a montagem encontra sua maior potência.

A ruptura das normas de gênero não aparece apenas na diversidade do elenco, embora ela seja decisiva. Mulheres interpretam homens, mulheres trans interpretam mulheres, e os papéis deixam de obedecer à lógica binária que organiza a tradição teatral ocidental.

Mais do que isso, os próprios códigos corporais são reinventados. Corpos femininos ocupam o espaço com uma liberdade historicamente reservada aos homens: caminham de pernas abertas, exibem os seios sem submissão ao olhar masculino, assumem posturas de poder e transformam aquilo que tantas vezes foi objeto de controle em instrumento de presença.

Não há ali uma erotização disponível ao desejo masculino. Há uma reconfiguração política do corpo em cena. Como espectadora, essa operação produz um efeito raro. Em vez de assistir à representação da opressão feminina, somos convidadas a experimentar outra gramática da presença. Não porque a violência desapareça, mas porque ela deixa de organizar sozinha a experiência do olhar.

É justamente por isso que faz sentido pensar a montagem como uma revanche feminina. Não uma revanche construída pela idealização das personagens — Nelson continua escrevendo mulheres contraditórias, cruéis, ambíguas, profundamente humanas. A encenação não lhes concede inocência; concede-lhes centralidade.

Grande parte dessa força passa pela atuação de Joana Medeiros. Sua presença em cena possui uma intensidade difícil de descrever sem recorrer ao próprio vocabulário do Oficina: um corpo que parece produzir pensamento enquanto atua. Sua interpretação organiza a energia da montagem e sustenta uma experiência que permanece vibrando muito depois do fim do espetáculo. É uma atuação de enorme rigor técnico e potência artística, daquelas que justificam temporadas inteiras e permanecem na memória.

Ao final, saí com a sensação de que o Teatro Oficina continua sendo o Teatro Oficina. Não porque repita fórmulas ou tente conservar um passado, mas porque permanece fiel ao princípio que sempre o moveu: a invenção.

A presença de José Celso Martinez Corrêa atravessa o espetáculo sem se transformar em monumento. Ela aparece como método, como impulso e como disposição permanente para reinventar a linguagem teatral. Acredito que a maior homenagem que esta montagem lhe faça seja justamente não imitá-lo.

Hoje, esse gesto antropofágico ganha novos corpos. Mulheres cis, mulheres trans e outras dissidências de gênero ocupam o centro da criação e demonstram que a permanência de um legado depende menos da repetição do que da capacidade de continuar sendo atravessado pelas urgências do presente.



Para quem acompanha a trajetória do Oficina, essa talvez seja a imagem mais bonita da noite: um teatro que permanece vivo porque aceita transformar-se. Um teatro que continua devorando o mundo e, desta vez, também a maneira como aprendemos a olhar para Nelson Rodrigues.

Ficha Técnica

Texto: Nelson Rodrigues
Criação: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona
Direção: Joana Medeiros
Ass. de direção: Chico Barbosa, João Estevão
Elenco: Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Henrique Maria, Joana Medeiros, Marina Wisnik, Maurilio Domiciano, Vick Nefertiti, Victor Rosa, Viviane Clara Bomfim, Zizi Yndio do Brasil
O Ponto: Artur Medeiros
Fotografia: Cafira Zoé, Pedro Martins e Antonio Simas
Produção: Sônia Esper, Bruli
Produtor Associado: Guilherme Gil de Oliveira
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
Apoio: Aboud Shawarma Comida Árabe, Viação Cometa
Realização: Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona

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