A Estética da Saudade

 

Saindo do Sesc Santana, segue-se pela Av. Luiz Dumont Villares, Avenida Nova para os íntimos, rumo à Avenida Zaki Narchi. Onde hoje existe um posto de gasolina, na esquina com a Rua Jacuna, atravessa-se a rua e vira-se a terceira à direita, na Guaracininga. Foi ali que passei parte da infância: jogos improvisados na rua, brincadeiras que transformavam qualquer pedaço de concreto em território imaginário, amizades que o tempo afastou da convivência cotidiana, mas que seguem vivas em alguma região do afeto e, às vezes, do Instagram.

Não morando mais naquele bairro, percebo que retornar àquela região produz uma espécie de nostalgia geográfica. Antes mesmo de entrar no teatro, meu corpo já estava implicado emocionalmente por uma memória espacial. Talvez por isso Saudade, espetáculo do grupo Os Geraldos, tenha me atravessado desde o início: não apenas pelo tema da infância, mas pela forma como a peça transforma lembrança individual em memória coletiva encenada.

As brincadeiras apresentadas em cena com os brinquedos antigos, os jogos corporais, a relação entre as crianças e a rua, não aparecem como representação idealizada de uma infância específica, mas como reconhecimento compartilhado. Não exatamente uma “universalidade”, palavra que frequentemente apaga diferenças históricas e materiais, mas uma experiência comum construída através da cena. 



Foto: Bob Sousa



Inspirada livremente no conto Pinguinho, de Viriato Correia, com dramaturgia de Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro, a montagem aborda a relação entre infância e morte com delicadeza e inteligência, sem transformar a experiência da perda em pedagogia emocional simplificada. O espetáculo, que não se define infantil, paira nas brincadeiras, no humor, na imaginação e muito especialmente no encantamento visual, mas há também palavrões, melancolia e elaboração da morte. Saudade escapa dessa divisão rígida que beiram o empobrecimento das linguagens teatrais ao separar aquilo que seria destinado às crianças daquilo que seria permitido aos adultos. 

A emoção em Saudade é construída lentamente, mais pela elaboração estética do que pelo apelo sentimental. O que a encenação produz é outra coisa: uma elaboração estética da memória. A emoção nasce da composição entre música, corpo, ritmo e imagem. 

E o ritmo da peça é impressionantemente bem desenhado. Especialmente na reta final, quando o espetáculo parece ensaiar sucessivos encerramentos, cria-se um movimento arriscado: a sensação de que qualquer retorno poderia desmontar a pulsação construída até então. No entanto, a encenação encontra novas curvas sem perder organicidade. O vai-e-vem final funciona quase como um pequeno labirinto rítmico cuidadosamente costurado.

Essa organicidade também se sustenta na forte afinação do elenco formado por Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar . Há uma composição coletiva muito consistente que contribui com a estética da cena e ainda dá vazão para valorar o trabalho individual do grupo.  

A utilização de diferentes ritmos e canções em português, francês, italiano e latim talvez possa causar certo estranhamento por uma possível falta de unidade estética mais homogênea. No entanto, a impressão que permanece é menos a de ruptura do que a de sobreposição de camadas culturais e afetivas, como se o coro acumulasse diferentes tempos e heranças dentro de uma mesma memória coletiva.

A força maior da montagem, no entanto, reside em sua plasticidade. Com direção e concepção de cena, figurino e cenografia de Douglas Novais, a visualidade da encenação não surge como mero ornamento da dramaturgia: ela produz pensamento. O chão iluminado, os figurinos em algodão cru, as imagens coletivas construídas pelo elenco e a paleta terrosa evocam um imaginário profundamente brasileiro, em diálogo com o universo pictórico de Cândido Portinari. A beleza da cena não anestesia; ao contrário, organiza sensorialmente a experiência da memória.


Foto: Bob Sousa



Há espetáculos que contam histórias sobre o passado. Saudade parece mais interessada em investigar como certas lembranças continuam existindo no corpo coletivo mesmo depois que os lugares mudam, as infâncias acabam e as ruas deixam de pertencer às crianças…


FICHA TÉCNICA
Direção e concepção de cena, figurino e cenografia: Douglas Novais
Direção musical e preparação vocal: Everton Gennari
Dramaturgia: Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro
Direção de texto: Douglas Novais e Paula Guerreiro
Elenco: Alexandre Cremon, Carolina Delduque, Emme Toniolo, Everton Gennari, Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, João Fernandes, Julia Cavalcanti, Paty Palaçon, Paula Guerreiro, Pedro Dias, Roberta Postale e Valéria Aguiar
Iluminação: Caetano Vilela
Visagismo e maquiagem: Douglas Novais e Gileade Batista
Assistência de direção: Julia Cavalcanti
Assistência Dramatúrgica: Emme Toniolo e Tatiana Alves
Coordenação do Ateliê Kairós: Emme Toniolo
Assistência do Ateliê Kairós: Gileade Batista, Guilherme Crivelaro, Vinícius Zaggo, Valéria Aguiar, Agnes Foster, Aline Sivieri e Jennifer Adélia
Fotografia: Stephanie Lauria, Bob Sousa e Guto Muniz
Design gráfico e Ilustrações: Guilherme Crivelaro
Redação do programa: Paula Guerreiro
Operação de luz: Débora Piccin
Coordenação de produção executiva: Paty Palaçon
Produção executiva: Anna Helena Longuinhos
Assistência de produção: João Vitor Paulato, Nicole Mesquita, Lívia Telles
Captação e Projetos: Carolina Delduque, Paula Guerreiro, Lívia Telles, Paty Palaçon
Assistência de Captação e Projetos: Pedro Dias, Anna Helena Longuinhos e Débora Piccin
Coordenação técnica: João Fernandes e Alexandre Cremon
Assistência técnica: Roberta Postale e Pedro Dias
Coordenação de comunicação: Nicole Mesquita
Coordenação de gestão: Tatiana Alves
Coordenação geral: Douglas Novais
Produção: Os Geraldos

SERVIÇO
SAUDADE
Grupo Os Geraldos

Data dos Eventos: de 15/05 a 14/06/2026, sextas e sábados às 20h, aos domingos e feriados às 18h. Com exceção do dia 23/05, onde a sessão será às 21h e do dia 13/06 que não haverá sessão. Sessões extras nos dias 29/05 e 12/06, às 15h e às quintas, dia 04/06, às 18h e dia 11/06, às 20h.
Acessibilidade: a partir do dia 22/05 – tradução e interpretação em Libras, audiodescrição e recursos táteis.

Duração: 60 minutos
Recomendação etária indicativa: 12 anos
Ingressos: R$ 18 (credencial plena), R$ 30 (meia entrada) e 60 (inteira)
Venda de ingressos a partir de 5/5 pelo APP Credencial Sesc SP, no site sescsp.org.br/santana, ou a partir de 6/5 nas bilheterias das Unidades.

Sesc Santana - Teatro (330 lugares)
Av. Luiz Dumont Villares, 579, São Paulo – SP, Tel.: 11 2971-8700
Prefira o transporte público: Jd. São Paulo – 850m | Parada Inglesa – 1.250m


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