A Asfixia do Capital: Corpo, Gênero e o Não-Humano em Vampyr, de Manuela Infante/ Especial MIRADA - Festival Ibero-americano de Artes Cênicas - Ed. 2026
A produção teatral da dramaturga e diretora chilena Manuela Infante tem se consolidado como um dos territórios mais férteis para a investigação da cena contemporânea latino-americana. A própria artista define sua prática como uma espécie de “filosofia encarnada”: o palco deixa de ser apenas lugar de representação e contação de histórias para se transformar em espaço de experimentação física e sensível de conceitos complexos.
É dentro dessa pesquisa em torno do não-humano, que busca descentralizar o sujeito universal, racional e burguês moldado pelo humanismo iluminista, que Vampyr constrói sua força. A peça não se reduz a uma narrativa sobre o horror folclórico do vampirismo. Ao deslocar o Homem Universal do centro, Manuela Infante revela aquilo que ocupa esse lugar nas dinâmicas contemporâneas: o Capital, a exploração sistemática do trabalho e a extração predatória de energia.
A encenação estrutura-se como um falso documentário, em que investigadores tentam capturar, classificar e expor a existência de criaturas vampíricas ligadas a uma usina eólica. A luz total de algumas cenas, funcionam como extensões de uma razão ocidental-capitalista que pretende vigiar, catalogar e domesticar aquilo que não conhece. A luz serve para expor e, aqui, o que é exposto pode ser observado, classificado, controlado. Em contrapartida, a sombra e a escuridão aparecem como zonas de resistência. Historicamente associadas ao feminino, ao monstruoso e ao que escapa às normas heteropatriarcais, elas constituem, em Vampyr, o espaço seguro dessas criaturas. É onde a luz do capital não consegue penetrar e colonizar inteiramente que esses corpos dissidentes encontram a possibilidade de manter sua opacidade e sua soberania. E então a peça nos leva ao corpo. A conexão entre a extração da energia do vento pelas usinas eólicas e a sobrevivência dos vampiros constrói uma metáfora potente sobre o capitalismo tardio. Na perspectiva feminista materialista e ecofeminista, como encontramos em Silvia Federici, a lógica de acumulação capitalista trata a natureza e os corpos feminizados ou marginalizados como fontes de energia e trabalho a serem continuamente exploradas até o esgotamento.
Em Vampyr, esse adoecimento é sutil, interno e invisível na superfície. Ele está nos pulmões. Por fora, aparentemente, está tudo bem mas, por dentro, o corpo está adoecendo. A imagem é poderosa porque conecta a biologia com a política. O capitalismo aparece como uma força que consome a força vital dos corpos, que exige deles uma disponibilidade permanente para o trabalho e que produz um adoecimento que nem sempre pode ser visto por quem está do lado de fora.
As personagens trabalham à noite e não conseguem descansar durante o dia. O sistema nervoso é afetado e, com isso, os órgãos internos também, especialmente o pulmão. Interessante perceber que o próprio tempo da peça parece experimentar essa exaustão através da sua estrutura fragmentada, marcada por esse movimento criando uma espécie de suspensão temporal. A peça parece caminhar para o fim, mas retorna. Volta. Suspende. Respira. E novamente começa um movimento. É como um vôo de morcego. Um voo que não se realiza em linha reta, que avança, muda de direção, cai e retoma o movimento. A própria encenação parece respirar. Esse "tempo do respiro" funciona como uma recusa explícita à linearidade contínua, acelerada e produtiva exigida pelo capital. A busca dessas criaturas pela sobrevivência física não se dá pelo heroísmo romântico, mas sim pela insistência em respirar em um sistema que lhes nega o ar, configurando uma forma de resistência corpórea e recusa ao esgotamento do trabalho compulsório. Essa dimensão política também atravessa as relações de gênero e cuidado construídas pela peça. A subversão das estruturas patriarcais atinge seu ponto mais explícito na configuração das relações de parentesco das criaturas marginalizadas. A presença de uma identidade não-feminina exercendo o papel de mãe implode a instituição da família nuclear burguesa. A teoria feminista tem demonstrado historicamente como o patriarcado capitalista naturalizou o trabalho de reprodução social e de cuidado, delegando-o à mulher cisgênero sob a justificativa do "instinto biológico" ou do "amor incondicional", com o intuito de não remunerar essa força de trabalho essencial. Ao colocar um corpo dissidente para encarnar a maternidade em um contexto de exclusão absoluta, Vampyr desnaturaliza o cuidado. A maternidade e o afeto entre as criaturas deixam de ser uma imposição biológica ou uma função reprodutiva a serviço do Estado e do Capital, convertendo-se em uma aliança política de sobrevivência coletiva. Eles cuidam uns dos outros na periferia do sistema porque a preservação mútua dos corpos marginalizados é a única barreira restante contra a destruição total promovida pela máquina econômica. Há ainda outra operação fundamental na peça: a relação entre o morcego chileno e o imaginário europeu do vampiro. O deslocamento dessa figura é também um deslocamento colonial. O vampiro pertence ao imaginário europeu, enquanto o morcego que suga sangue está aqui. A criatura é daqui, mas a imagem que construímos dela vem de lá. E então aparece uma pergunta que atravessa a peça: quem é o vampiro de quem? A história da América Latina também é uma história de extração. De territórios, riquezas, trabalho, corpos e recursos naturais. Fomos continuamente sugados para alimentar projetos econômicos construídos a partir de outras lógicas e outros centros de poder. O vampirismo, então, deixa de ser apenas uma característica dessas criaturas e se aproxima da própria lógica capitalista: extrair energia, trabalho e vida até o limite.
Por fim, vale destacar que todo o arcabouço teórico e conceitual proposto por Infante ganha contornos de realidade palpável a partir da assombrosa entrega técnico-artística do elenco, composto por Marcela Salinas e David Gaete. O que se testemunha em cena é um trabalho de corpo rigoroso e uma presença cênica magnética, que fundem, de maneira rara, uma técnica milimétrica a uma sensibilidade visceral. A dicção precisa do ator e da atriz, com os dentes de vampiro, confere à dramaturgia o peso exato de cada palavra, enquanto a interação contínua entre Salinas e Gaete revela uma afinação tão milimétrica e orgânica que há tempos não se presenciava nos palcos, um feito admirável, especialmente para um público habituado à efervescência e ao alto nível do circuito teatral de São Paulo. Contemporâneos, cirúrgicos e profundamente conectados, corporificam a própria tese da peça, transformando a exaustão física e a resistência política em pura eletricidade cênica. É também por isso que o verdadeiro vampirismo não reside nas criaturas da noite, mas na engenharia socioeconômica capitalista e patriarcal que extrai continuamente a energia da natureza e dos indivíduos, privando-os de sua capacidade elementar de respirar.
Ficha técnica
Direção e dramaturgia: Manuela Infante
Produção: Carmina Infante Güell
Elenco: Marcela Salinas e David Gaete
Design: Rocio Hernández
Assistente de direção e chefe técnico: Pablo Mois
Treinamento e coreografia: Dian C. Guevara
Desenho sonoro: Manuela Infante
Som: Víctor Muñoz
Pesquisa teórica e dramaturgismo: Camila Valladares
Figurino: Elizabeth Pérez
Relações internacionais: Cecilia Kuska (ROSA studio)
Tour manager: Luisa Tupper
Coprodução: Centro Cultural Matucana 100, Espacio Checoeslovaquia, Centro Cultural de España (Chile), NAVE e Beykoz Kundura
Apoio: Universidad Academia de Humanismo Cristiano, Oxiluz Iluminaciones e Cultura Violeta
Equipe Brasil
Produção: Ariane Cuminale, Bruno José, Letícia Karen e Alba Roque – Vuela – Produção e Criação Cultural
Direção técnica: Rodrigo Gava
Cenografia: Carol Buček e Carol Vieira
Cenotecnia: Zé da hora
Operação de som: Junão Ferreira
Operação de luz: Clara Caramez
Operação de vídeo: Ricardo Barbosa
Camareiras: Zizi Lucio e Lidu Aires
Transporte de cenário: Izildo Tadeu de Andrade Transportes
Transporte da equipe: Transfermay
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