RUA: Entre o ritmo e a travessia
Com uma ficha técnica que reúne nomes de destaque e um forte investimento na dimensão sensorial da cena, RUA, com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Eugenio Lima, se constrói como um espetáculo em que música, dança e visualidade para além de acompanhar a ação, são sua própria engrenagem dramatúrgica. Há um pulso contínuo que atravessa o trabalho e que se ancora, sobretudo, na experiência do corpo: o desejo de dançar, de repetir os gestos, de entrar em relação com aquilo que se vê.
Essa dimensão não é acessória. Ao contrário, parece ser a principal aposta da encenação. Embora a narrativa apresente a desigualdade social como ponto de partida, a peça opta por não aprofundá-la em chave analítica, mas por mantê-la como horizonte de fundo, como uma presença que organiza o espaço, mas não tensiona diretamente a ação. A rua, nesse sentido, opera mais como imagem do que como conflito: lugar de encontro, de brincadeira, de atravessamento possível.
| Foto: Rafa Américo |
O deslocamento do eixo dramático para a relação entre Jess e Ritinha também revela esse movimento. Se, num primeiro plano, a obra sugere uma divisão entre mundos sociais distintos, é no campo das relações entre meninas que a ação ganha densidade. Jess, que vive em uma configuração familiar instável, carrega em si uma questão de pertencimento que atravessa sua presença em cena. Essa dimensão imprime à personagem uma espessura que se desdobra na rivalidade com Ritinha, uma rivalidade que, correndo o risco de reiterar uma lógica já conhecida de rivalidade entre meninas, ao final, cede lugar a um gesto de reconhecimento e parceria.
Nesse movimento, o espetáculo parece menos interessado em sustentar o conflito e mais em construir possibilidades de convivência. Há uma escolha clara por uma tonalidade conciliadora, que se traduz tanto na resolução das tensões quanto na atmosfera geral da obra. Para o público jovem, essa escolha se articula a uma pedagogia do encontro: a ideia de que, apesar das diferenças, é possível compartilhar o espaço, a dança, o futuro.
Essa pedagogia se apoia fortemente na materialidade da cena. A trilha sonora, assinada por Barroso e Eugenio Lima, dialoga com matrizes do hip hop e do funk, enquanto o trabalho corporal, com preparação de Luaa Gabanini e colaboração de Khalifa Idd nos passinhos, sustenta a vitalidade do espetáculo. O figurino de Claudia Schapira contribui para a construção de identidades reconhecíveis e contemporâneas, e a videografia de Vic von Poser projeta uma rua imagética, colorida, que amplia o campo do imaginário.
Há, nesse conjunto, uma coerência sensível: cada artista parece operar em sintonia com a proposta, extraindo de seu campo o que ele tem de mais potente. O elenco composto por Barroso, Fernando Lüfer, Jennifer Souza, Rodrigo Pavon e a própria Fran Ferraretto, sustenta essa engrenagem com presença e energia, compondo uma cena que se comunica com clareza com seu público.
Talvez seja justamente aí que reside uma das marcas do espetáculo: uma aposta na comunicação direta, na construção de um vínculo imediato com a plateia. Se, por um lado, isso pode fazer com que certas camadas permaneçam apenas sugeridas, por outro, garante uma experiência acessível, envolvente e, em muitos momentos, mobilizadora.
RUA, assim, não se coloca como um teatro de aprofundamento conceitual, mas como um teatro de aproximação. Um teatro que apresenta, insinua, convoca e encontra, na força coletiva de sua realização, o caminho para fazer da cena um espaço de encontro possível.
Ficha Técnica
Idealização e texto: Fran Ferraretto
Direção e direção musical: Eugenio Lima
Elenco: Barroso, Fernando Lüfer, Fran Ferraretto, Jennifer Souza, Rodrigo Pavon
Trilha Sonora: Barroso e Eugênio Lima
Preparadora corporal: Luaa Gabanini
Workshop Passinho: Khalifa Idd
Figurino: Claudia Schapira
Desenho de Luz: Matheus Brant
Videografia: Vic von Poser
Operação de luz: Matheus Espessoto
Operação de vídeo: Júlia Fávero
Operação de som: Viviane Barbosa
Cenotécnico: Wanderley Wagner
Design Gráfico: Murilo Thaveira
Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo
Mídias sociais: Rafael Américo
Fotos: Sérgio Silva
Direção de Produção: Paula Malfatti
Coordenação de Produção: FATTO Realizações
Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso
Serviço
RUA
Temporada: 1º a 29 de março de 2026
Horários: Domingos, dias 1º, 8, 15, 22 e 29 de março, em duas sessões, às 15h e às 17h
Sessão com LIBRAS dia 22/03
Local: Sesc Pinheiros - Auditório - R. Pais Leme, 195 - Pinheiros, São Paulo, SP
Ingressos: R$12 (credencial plena)/ R$20 (meia entrada)/ R$40 (inteira)/ Grátis para crianças até 12 anos - Vendas em sescsp.org.br ou na bilheteria de qualquer unidade
Duração: 50 min | Classificação: Livre | Recomendação: a partir de 8 anos
Capacidade: 100 lugares
Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
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