Sustentar o abismo: sobre Coragem – um lugar melhor do que aqui
Frequentemente,
o teatro se debruça sobre o lugar das mulheres na sociedade, insistindo nas
possibilidades de força coletiva, de união e de transformação. Mas o que
acontece quando esse coletivo adoece? Como lidamos com esse processo em curso,
que se faz silencioso, contínuo e profundamente enraizado nas estruturas que
nos atravessam? Quais são, então, as consequências do descaso e do abandono
sistemático desses corpos?
É
nesse campo de tensão que a DeSúbito Cia., ao longo da trilogia Afeto, Raiva
e Coragem, deixa de formular perguntas para levar ao limite as reações de
mulheres que sustentam o abismo em si e na forma como ele reverbera
socialmente. Algumas vezes retratadas como vencedoras, outras apenas como
sobreviventes, essas mulheres existem no limiar.
É
neste limiar que o espetáculo Coragem – um lugar melhor do que aqui
inscreve-se como um gesto crítico que recusa a leitura simplista do colapso
como atributo individual das mulheres. O que se desenha em cena é um processo
contínuo de desmoralização operado por um sistema de saúde público em ruína,
atravessado pela ausência de políticas públicas, pela precarização
institucional e pela violência difusa que incide sobre corpos marcados por
gênero, classe e raça. As mulheres não estão à beira de um ataque por uma
fragilidade intrínseca; algo acontece reiteradamente que as coloca nesse
estado. O colapso, aqui, é produzido.
Essa
narrativa vai se construindo, ou talvez se desenrolando e se enrolando, em
camadas que expõem o esgotamento como condição estruturante. A dificuldade de
acesso à saúde, a perversidade dos convênios que excluem corpos envelhecidos, a
lógica burocrática que transforma o direito em espera: tudo contribui para esse
cenário de desgaste radical. E, ao evidenciar escancaradamente esse mundo, a
peça nos devolve imagens de mulheres que cuidam, trabalham, sonham, vivem e
que, levadas ao limite, externalizam ao máximo aquilo que as atravessa.
Nesse
sentido, as escolhas estéticas grotescas operam como ponto alto da encenação.
Longe de um excesso gratuito, o grotesco emerge como linguagem crítica,
produzindo um desconforto que atinge tanto a cena quanto o olhar de quem
assiste. Se historicamente se esperava que mulheres em cena se mantivessem
disponíveis ao agrado, aqui vemos corpos que gritam, sangram, bebem, amam em
demasia: corpos que se colocam de forma a corromper padrões estéticos seculares
que ainda insistem em se manter. Trata-se de uma radicalização que além de
deslocar expectativas, tensiona o próprio regime de visibilidade do feminino.
Há,
contudo, um dado particularmente interessante na construção das atuações: o
grotesco não se dá pela via da caricatura, mas pela fricção com um registro
naturalista rigorosamente sustentado. As atrizes constroem linhas de
interpretação sofisticadas, mantidas do começo ao fim mesmo diante das
intempéries que atravessam suas personagens. Essa coerência técnica não indica
imobilidade, tampouco uma ideia simplista de resiliência, mas revela um domínio
em que a interpretação se molda aos estados da personagem sem perder sua
espinha dorsal.
Destaca-se,
nesse campo, a consistência do elenco, formado por Samanta Precioso, Noemi
Marinho, Jane Fernandes e Lucélia Sérgio, que sustenta, com rigor, uma linha de
interpretação em que esse grotesco emerge não como caricatura, mas como fricção
com o naturalismo. Samanta Precioso constrói uma personagem que, doce, leve e
sorridente em meio ao caos, produz um efeito simultaneamente irritante, não
pelo excesso mas pela inadequação que tensiona o olhar. Já Noemi Marinho, com
entra em cena com uma familiaridade que evoca figuras reconhecíveis do
cotidiano, como se fosse uma parente conhecida que todos temos e imprime à cena
um domínio que reorganiza o fluxo do espetáculo: sua entrada reconfigura o
ritmo, instaurando um tempo e uma escuta que elevam a dramaturgia. Jane
Fernandes e Lucelia Sergio, por sua vez, contribuem para a tessitura desse
coletivo cênico com atuações que, sem hierarquias evidentes, sustentam a
densidade do conjunto, permitindo que o colapso se manifeste em estado
contínuo.
No
plano técnico, som, luz e cenário se articulam de maneira precisa, compondo um
ambiente sensorial que intensifica o clima de tensão e desgaste. A iluminação e
a trilha são finamente ajustadas, contribuindo para essa atmosfera instável em
que o realismo e o delírio se entrelaçam, produzindo um fio cênico que, ao
invés de se linearizar, se dobra sobre si mesmo.
Ao
radicalizar o cuidado, o espetáculo expõe também seu custo: o cuidado como
gesto ético e político, mas também como exaustão, como limite, como risco de
esgarçamento. Nesse sentido, Coragem reafirma um posicionamento crítico e o
encarna em cena, produzindo um desconforto que não se resolve facilmente. É uma
obra que insiste e, ao insistir, abre fissuras ao evidenciar que, em um
mundo em colapso, sustentar a vida pode ser, ao mesmo tempo, ato de resistência
e beira de abismo.
| Foto: Caio Oviedo |
Ficha Técnica
Dramaturgia: Carla Zanini.
Direção artística: Carla Zanini e Ricardo Henrique.
Elenco: Noemi Marinho, Jane Fernandes, Lucelia Sergio e Samanta Precioso.
Preparação de atuação: Felipe Rocha.
Trilha sonora: Mini Lamers.
Iluminação: Dimitri Lupi.
Cenografia: Stephanie Fretin.
Figurino: Andy Lopes.
Assistente de figurino: Isaac Vale.
Contrarregra: Guira Bará.
Identidade visual: Angela Ribeiro.
Redes sociais: Jorge Ferreira.
Assessoria de imprensa: Pombo Correio Comunicação.
Assistente de produção: Renata Martins.
Direção de produção: Mariana Novais — Ventania Cultural.
Idealização: DeSúbito Cia. e Ventania Cultural.
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