Sustentar o abismo: sobre Coragem – um lugar melhor do que aqui

O espetáculo Coragem – um lugar melhor do que aqui inscreve-se como um gesto crítico que recusa a leitura simplista do colapso como atributo individual das mulheres. O que se desenha em cena é um processo contínuo de desmoralização operado por um sistema de saúde público em ruína, atravessado pela ausência de políticas públicas, pela precarização institucional e pela violência difusa que incide sobre corpos marcados por gênero, classe e raça. As mulheres não estão à beira de um ataque por uma fragilidade intrínseca; algo acontece reiteradamente que as coloca nesse estado. O colapso, aqui, é produzido.

Essa narrativa vai se construindo, ou talvez se desenrolando e se enrolando, em camadas que expõem o esgotamento como condição estruturante. A dificuldade de acesso à saúde, a perversidade dos convênios que excluem corpos envelhecidos, a lógica burocrática que transforma o direito em espera: tudo contribui para esse cenário de desgaste radical. E, ao evidenciar escancaradamente esse mundo, a peça nos devolve imagens de mulheres que cuidam, trabalham, sonham, vivem e que, levadas ao limite, externalizam ao máximo aquilo que as atravessa.

Nesse sentido, as escolhas estéticas grotescas operam como ponto alto da encenação. Longe de um excesso gratuito, o grotesco emerge como linguagem crítica, produzindo um desconforto que atinge tanto a cena quanto o olhar de quem assiste. Se historicamente se esperava que mulheres em cena se mantivessem disponíveis ao agrado, aqui vemos corpos que gritam, sangram, bebem, amam em demasia: corpos que se colocam de forma a corromper padrões estéticos seculares que ainda insistem em se manter. Trata-se de uma radicalização que além de deslocar expectativas, tensiona o próprio regime de visibilidade do feminino.

Há, contudo, um dado particularmente interessante na construção das atuações: o grotesco não se dá pela via da caricatura, mas pela fricção com um registro naturalista rigorosamente sustentado. As atrizes constroem linhas de interpretação sofisticadas, mantidas do começo ao fim mesmo diante das intempéries que atravessam suas personagens. Essa coerência técnica não indica imobilidade, tampouco uma ideia simplista de resiliência, mas revela um domínio em que a interpretação se molda aos estados da personagem sem perder sua espinha dorsal. 

Destaca-se, nesse campo, a consistência do elenco, formado por Samanta Precioso, Noemi Marinho, Jane Fernandes e Lucélia Sérgio, que sustenta, com rigor, uma linha de interpretação em que esse grotesco emerge não como caricatura, mas como fricção com o naturalismo. Samanta Precioso constrói uma personagem que, doce, leve e sorridente em meio ao caos, produz um efeito simultaneamente irritante, não pelo excesso mas pela inadequação que tensiona o olhar. Já Noemi Marinho, com entra em cena com uma familiaridade que evoca figuras reconhecíveis do cotidiano, como se fosse uma parente conhecida que todos temos e imprime à cena um domínio que reorganiza o fluxo do espetáculo: sua entrada reconfigura o ritmo, instaurando um tempo e uma escuta que elevam a dramaturgia. Jane Fernandes e Lucelia Sergio, por sua vez, contribuem para a tessitura desse coletivo cênico com atuações que, sem hierarquias evidentes, sustentam a densidade do conjunto, permitindo que o colapso se manifeste em estado contínuo.

No plano técnico, som, luz e cenário se articulam de maneira precisa, compondo um ambiente sensorial que intensifica o clima de tensão e desgaste. A iluminação e a trilha são finamente ajustadas, contribuindo para essa atmosfera instável em que o realismo e o delírio se entrelaçam, produzindo um fio cênico que, ao invés de se linearizar, se dobra sobre si mesmo.

Ao radicalizar o cuidado, o espetáculo expõe também seu custo: o cuidado como gesto ético e político, mas também como exaustão, como limite, como risco de esgarçamento. Nesse sentido, Coragem reafirma um posicionamento crítico e o encarna em cena, produzindo um desconforto que não se resolve facilmente. É uma obra que insiste  e, ao insistir, abre fissuras ao evidenciar que, em um mundo em colapso, sustentar a vida pode ser, ao mesmo tempo, ato de resistência e beira de abismo.

 

Foto: Caio Oviedo

Ficha Técnica

Dramaturgia: Carla Zanini.
Direção artística: Carla Zanini e Ricardo Henrique.
Elenco: Noemi Marinho, Jane Fernandes, Lucelia Sergio e Samanta Precioso.
Preparação de atuação: Felipe Rocha.
Trilha sonora: Mini Lamers.
Iluminação: Dimitri Lupi.
Cenografia: Stephanie Fretin.
Figurino: Andy Lopes.
Assistente de figurino: Isaac Vale.
Contrarregra: Guira Bará.
Identidade visual: Angela Ribeiro.
Redes sociais: Jorge Ferreira.
Assessoria de imprensa: Pombo Correio Comunicação.
Assistente de produção: Renata Martins.
Direção de produção: Mariana Novais — Ventania Cultural.
Idealização: DeSúbito Cia. e Ventania Cultural.



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