Quando falamos de infância: escuta e endereçamento em Planeta Pelúcia

Entre o tecido macio da fantasia e a engrenagem áspera do mundo adulto, Planeta Pelúcia constrói uma travessia que parece oscilar entre dois endereçamentos: a infância que deseja e o adulto que recorda. Há, na dramaturgia de Bruno Canabarro e na direção de Rodolfo Amorim, um esforço visível de dialogar com ambos.

Assistida ao lado de uma criança, a experiência evidencia um descompasso sutil, porém significativo: enquanto o espetáculo convida o público adulto a revisitar suas próprias perdas, com esse desejo recorrente de “manter viva a criança interior”, a criança espectadora nem sempre encontra mediações suficientes para elaborar os códigos propostos em cena.

A trajetória de Pati, menina que anseia crescer para ser vista e ouvida, toca em um impulso reconhecível: o desejo de atravessar fronteiras interditadas. No entanto, esse desejo surge já atravessado por uma lógica adulta de reconhecimento e pertencimento, como se a infância ali encenada estivesse previamente informada pelas estruturas que pretende tensionar. Essa questão nos apresenta um sintoma: em um mundo orientado por produtividade, visibilidade e consumo, até mesmo a imaginação infantil parece nascer influenciada por expectativas que lhe são exteriores.A crítica à adultização, assim, se desloca: ao invés de observar o fenômeno desde fora, a encenação por vezes o reproduz, ao inscrever na criança uma consciência que ainda não lhe pertence plenamente.

Essa tensão se evidencia também na relação com o humor e com os códigos culturais mobilizados. Referências como os estereótipos de “Enzo” e “Valentina”, reconhecíveis para um público adulto habituado às dinâmicas das redes digitais, não encontram necessariamente ressonância na experiência infantil. O risco, nesse caso, não é apenas de incompreensão, mas de inversão de sentido: aquilo que se pretende sátira pode ser lido como afirmação. Quando a ironia depende de um repertório não compartilhado, o teatro se aproxima mais de uma conversa entre adultos do que de um espaço efetivo de interlocução com crianças.









A partir da experiência desta espectadora, compartilhada com uma criança, emerge a sensação de que a peça se comunica de maneira distinta com seus públicos. Em determinados momentos, percebe-se a ausência de uma elaboração mais lúdica da linguagem ,com a  criação de códigos que possam ser efetivamente partilhados com a infância. 

No campo das relações de gênero, a peça oferece sinais que, embora discretos, são reveladores. A transformação do corpo feminino, marcada por elementos como salto, maquiagem e figurino, aparece como um dos fortes indicadores de passagem para o mundo adulto. Essa escolha evidencia como a feminilidade é socialmente construída como aparência e performance.

Há ainda a configuração familiar da protagonista que vivendo com a mãe e o namorado desta, surge como um gesto muito potente da obra. Sem explicações ou justificativas, a peça incorpora essa estrutura como dado, deslocando silenciosamente o imaginário normativo ainda dominante. Trata-se de uma escolha política que opera pela naturalização: ao não transformar a diferença em destaque, o espetáculo afirma outras possibilidades de organização afetiva como parte do cotidiano. Aqui, o espetáculo cumpre um papel fundamental do teatro: não explicar, mas fazer existir. 

A encenação, por sua vez, investe em uma construção visual rica, na qual figurinos e camadas de materialidade compõem um universo sensível e inventivo. Destacam-se os figurinos de Felipe Cruz, que articulam texturas, sobreposições e volumes com inteligência, contribuindo de modo decisivo para a criação de atmosferas, de imaginários  e para a distinção entre os diferentes planos da narrativa. Nesse contexto, sobressai também a atuação de Bruna Betito que, junto ao elenco afinado formado por Bruno Canabarro e Paula Spinelli, sustenta com precisão a travessia entre diferentes personagens ao longo da peça, equilibrando delicadeza e versatilidade, sem perder a consistência de presença em cena.

O que se evidencia, nesse percurso, é também a consistência de Planeta Pelúcia enquanto obra: esteticamente bem resolvida, sensível em suas proposições e sustentada por uma construção cênica rigorosa. Sua qualidade a distancia de produções superficiais e reafirma um compromisso com o pensamento e com a elaboração artística.

Ao final, a peça parece mais interessada em elaborar, poeticamente, o mal-estar adulto em relação às infâncias. A solidão, o excesso de estímulos e a pressão por desempenho atravessam a cena como questões legítimas de nosso tempo, mas, ao serem filtradas predominantemente por uma sensibilidade adulta, acabam por tensionar a possibilidade de uma experiência verdadeiramente compartilhada com o público infantil.

Reside aí uma ambivalência instigante: ao mesmo tempo em que denuncia a adultização das infâncias, a obra não escapa completamente de suas lógicas. Ainda assim, é nesse atrito que Planeta Pelúcia encontra sua força: ao deslocar o olhar e produzir perguntas que não se encerram na cena. E talvez a mais inquietante delas permaneça ecoando para além do teatro: quando falamos de infância, estamos, de fato, escutando as crianças ou seguimos, ainda, falando entre nós?

Ficha Técnica:
Dramaturgia: Bruno Canabarro
Direção e cenografia: Rodolfo Amorim
Elenco: Bruna Betito, Bruno Canabarro e Paula Spinelli
Direção musical e música ao vivo: Demian Pinto e Gabi Queiroz
Música original: Demian Pinto e Gabi Queiroz / Letras: Bruno Canabarro
Atores-contrarregras: Lucas Asseituno e Rafael Costa
Iluminação: Daniel Gonzalez
Videografia: Vic Von Poser
Figurinos e adereços: Felipe Cruz
Assistentes de figurinos: Asroba e Marcel Marques
Cenotecnia e objetos cênicos: Zé Valdir
Maquete cenográfica: Doideca no Papel - Marcela Falci
Bonecos e cabeção: Edson Gon
Identidade visual: Fernanda Zotovici e Gabriela Meyer
Preparação corporal e coreografias: Jhennifer Peguim
Voz em off: Alice Asseituno
Técnico de som: Maurício Caetano
Técnico de segurança: Sérgio de Souza (Boca)
Montador: Roberto Oliveira
Direção de produção: CASCA - Coletivo de Criação e Plataforma - Estúdio de Produção Cultural
Coordenação de produção: Fernando Gimenes
Produção executiva: Bruno Ribeiro
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação

SERVIÇO
Planeta Pelúcia

Data: 11 de abril a 23 de maio, aos sábados, às 11h | 1º de maio, sexta-feira (feriado), às 11h | Sessões com acessibilidade em LIBRAS:  dias 16 e 23 de maio
Local: Teatro Anchieta - Sesc Consolação - Rua Doutor Vila Nova, 245 - Vila Buarque, São Paulo - SP
Ingressos: R$40 (inteira), R$20 (meia-entrada), R$12 (credencial plena) e grátis para crianças até 12 anos. A exibição do dia 16/5, às 11h, será gratuita. Os ingressos poderão ser retirados on-line no dia 15/5, a partir das 14h, ou nas bilheterias da unidade no dia 16/5, a partir das 9h.
É possível comprar os ingressos no site do Sesc SP ou nas bilheterias de qualquer unidade
Telefone: (11) 3234-3000
Classificação: Livre

Duração: 60 minutos 

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