Eu e ela: quando a memória negra ocupa o palco e a cidade

 

Assistir Eu e Ela: visita a Carolina Maria de Jesus, de Dirce Thomaz, é presenciar uma travessia entre tempos históricos que continuam demasiadamente próximos. A montagem, de cena despojada e marcada por livros espalhados como vestígios de uma vida escrita à margem, recusa o excesso estético para apostar na força da palavra e da presença.

Dirce Thomaz ao interpretar Carolina Maria de Jesus convoca o público para um diálogo vivo. A semelhança física entre ambas impressiona de imediato, borrando as fronteiras entre biografia e representação e intensificando o encontro entre duas trajetórias de mulheres negras que transformaram exclusão em criação.  Em cena, Carolina e Dirce se atravessam: ora personagem e intérprete, ora espelho e continuidade histórica.

A peça acerta especialmente ao não  tratar a pobreza exclusivamente como paisagem da miséria e sofrimento, mas como território de invenção, escrita e resistência, sem no entanto, romantizar o que é dos maiores problemas sociais do país, especialmente para mulheres negras.  Ao aproximar a autora de Quarto de Despejo da própria biografia de Dirce Thomaz, atriz negra que conquistou espaço no teatro e na universidade, o espetáculo desloca Carolina do lugar de símbolo congelado e a reinscreve no presente.




Assisti ao espetáculo pela segunda vez, agora na Galeria Olido, ao lado de um grupo do Encontro de Espectadoras, projeto que promovo por meio deste blog. Parte da força dessa experiência está justamente em ver mulheres reunidas para assistir, conversar e construir memória crítica em torno de uma obra sobre autoria negra. Carolina escrevia para não desaparecer. Dirce encena para que ela continue falando. Nós, espectadoras, escutamos para que a cidade também responda.

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