Do fio d’água ao transbordamento - A Força da Água

 

O coletivo cearense Grupo Pavilhão da Magnólia presenteou o público paulistano com o espetáculo a Força da Água, que realizou uma curta temporada no Sesc Paulista. 

A obra parte de uma pergunta que parece simples, mas que organiza toda a força política do espetáculo: e se a seca não for uma fatalidade da natureza, mas consequência de decisões históricas, econômicas e políticas? A partir dessa perspectiva, a peça constrói um percurso documental que revisita diferentes momentos da história do Ceará, articulando documentos oficiais, relatos, humor e teatralidade para desmontar a naturalização da escassez de água no Brasil.

Assumidamente documental, a obra trabalha com dados históricos, linhas cronológicas e tensionamentos críticos sobre os próprios documentos apresentados em cena. Há quem não se agrade com espetáculos mais didáticos, como se explicar processos históricos empobrecesse a experiência artística, muito ao contrário do que pensa essa espectadora que aqui escreve. O didatismo não reduz a complexidade da obra; ele organiza caminhos de leitura. A peça não transforma o teatro em palestra, mas compreende que produzir pensamento também pode ser uma operação cênica profundamente envolvente. E assim o grupo articula o uso poético de imagens e leituras históricas que ainda hoje impactam as condições sociopolíticas da seca.  Afinal, ao indicar que o acesso à água potável é também um marcador social, torna-se necessária uma compreensão de como as desigualdades foram historicamente construídas em nosso país. 



Foto: Sérgio Lima


Nesse sentido, há algo de brechtiano no modo como o espetáculo articula aprendizagem e prazer. Aprende-se enquanto se ri, enquanto se acompanha o fluxo da narrativa, enquanto as informações históricas vão se acumulando até revelarem algo maior: a seca não aparece como ausência natural de água, mas como produto de um projeto político sustentado ao longo do tempo. O espetáculo vai nos conduzindo quase como um curso d’água: começa em pequenas infiltrações históricas e desemboca em uma estrutura ampla de violência, abandono e desigualdade. 

O humor, então, ocupa um papel importante nessa engrenagem. Entre ironias, deboche, sarcasmo e referências ao Brasil contemporâneo, a peça constrói uma comunicação viva com o público. Os memes e comentários atuais não surgem como recursos fáceis para arrancar risadas, mas como linguagem crítica. O riso aparece menos como alívio e mais como reconhecimento coletivo do absurdo histórico brasileiro. Em vez de suavizar a denúncia, o humor torna ainda mais evidente o nível de perversidade das estruturas apresentadas.

Também chama atenção a inteligência com que a peça articula imagem e discurso. O espetáculo cria metáforas, constrói ritmo, trabalha corporalidades e imagens sem abandonar sua clareza argumentativa. Há uma confiança rara na capacidade do público de acompanhar relações históricas complexas sem que a obra precise se esconder atrás da opacidade. Nesse percurso, o elenco composto por Conceição Soares, Iago, Jota Junior Santos, Nelson Albuquerque e Silvianne Lima  sustenta a cena com precisão, humor e forte presença crítica, conduzindo o público por entre os documentos, as ironias e as violências históricas apresentadas.

Ao historicizar a seca, A Força da Água rompe com a velha dramaturgia da fatalidade e opta por um território de elaboração coletiva da memória, da política e da própria ideia de país.

Para quem vive em São Paulo, essa experiência produz um deslocamento importante. O espetáculo aproxima uma realidade frequentemente tratada à distância, mas sem recorrer à vitimização simplificadora. Há uma frase da peça que permanece ecoando mesmo após o fim da sessão: não se trata de acabar com a seca, mas de compreender como se vive com ela. Essa mudança de perspectiva talvez seja uma das maiores forças da obra. O problema não é a existência da seca em si, mas a forma desigual e violenta como ela é administrada historicamente. Ao final, fica a sensação de que a história da seca no Brasil também é a história de uma violência sustentada gota por gota, década após década. Água mole em pedra dura. 


Ficha técnica -
A Força da Água

Elenco: Conceição Soares, Iago, Jota Junior Santos, Nelson Albuquerque e Silvianne Lima |Dramaturgia e direção: Henrique Fontes |Pesquisadora-colaboradora: Cydney Sergman | Direção de movimento: Ana Claudia Viana | Oficina Rasaboxes: Julia Sarmento | Desenho de luz e operação: Wallace Rios | Cenografia: Rodrigo Frota | Adereços: Beeethoven Cavalcante | Figurino: Ruth Aragão | Assistência de figurino: Wendy Mesquita | Sonoplastia: Ayrton Pessoa Bob e Eliel Carvalho | Preparação vocal: Thiago Nunes | Ilustrações: Raisa Christina | Designer gráfico: Carol Veras | Fotos: Arthur Bluz, Sérgio Lima e Humberto Araujo| Foto projetada e edição de vídeo (deepfake): Allan Diniz | Produção executiva: Som e Fúria Produções | Coordenação de produção: Som e Fúria | Produção geral: Pavilhão da Magnólia | Produção executiva: Silvianne Lima e Jota Jr. Santos | Produção SP: Corpo Rastreado | Apoio: Casa Absurda e Latam Cargo | Realização: Sesc São Paulo

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