Divórcio: o que ainda precisa ser dito?
Confesso que cheguei ao teatro acreditando que assistiria a uma peça densa, marcada quase exclusivamente pela violência contra as mulheres, como a cruel história que atravessou — mas não limitou — a vida de Maria da Penha. Saí do teatro precisando de um tempo para me recolher, pensar, digerir, lidar com lembranças e sensações. Ainda assim, dei boas risadas e fiz conexões importantes durante a apresentação. Divórcio não ameniza a violência. Ao contrário, encontra formas de nos fazer atravessá-la sem nos paralisar.
Logo no início, ao acompanharmos a personagem de classe média vivendo seu processo de separação, somos envolvidas pela neblina da dor, da confusão e de uma espécie de "desfuturo" que o divórcio provoca. É uma sensação que ultrapassa a perda. É como estar diante de uma ponte que se rompe ao meio. Para onde ir se já não existe mais o caminho de volta? E qual é o caminho que segue adiante? A solidão dessa mulher, e das outras mulheres que habitam a cena deste espetáculo, também nos representa. O divórcio é essa ponte quebrada que atravessamos sozinhas. Mesmo quando existe apoio, a travessia permanece profundamente particular. A peça, porém, nos lembra de que a elaboração dessa travessia não precisa acontecer no isolamento, como é representado nas cenas de conversas infindáveis entre amigas.
Os debates intermináveis sobre relacionamentos, maternidade, família, trabalho, autonomia: conselhos passageiros que, de repente, se tornam reflexões profundas. As palavras são cuidadas, experimentadas, reorganizadas durante a conversa. Não porque exista medo de errar, mas porque há liberdade. O pensamento vagueia ágil, curioso, feliz. A conversa entre amigas aparece como um território seguro para elaborar a própria existência, um espaço onde pensar também é uma forma de cuidado.
Em contraposição, a peça apresenta a conversa entre dois homens, cenicamente um dos momentos mais interessantes. Preciso admitir que percorri dois extremos durante essa cena. Nas primeiras falas questionei a qualidade dramatúrgica da peça até perceber que fui enganada pela mais refinada verossimilhança. O que parecia um texto frágil era, na verdade, o retrato preciso de uma forma masculina de comunicação produzida pelo próprio patriarcado. Um roteiro da vida real, mal escrito e, ainda assim, repetido e regurgitado por tantos homens, refletido numa dramaturgia muito bem alinhada. Conversas entrecortadas, interditos, meias palavras, frases interrompidas, pouca escuta, pouca elaboração. Uma impressão constante de que tudo foi dito, quando, na verdade, quase nada foi compreendido. Não há um verdadeiro esforço de autoconhecimento nem de compreensão do outro. Divórcio realiza, nesta cena, uma denúncia profundamente inteligente e surpreendentemente engraçada. Rimos porque reconhecemos aquela realidade. E também sentimos pena da pobreza afetiva que o patriarcado produz entre os próprios homens.
Depois de suscitar em nós essas lembranças, raivas e desconfortos, somos convidadas a lançar ovos contra uma placa de acrílico enquanto pensamos em nossos "boys lixo", segundo a fala da atriz. Juntei-me a outras mulheres (e também a homens) e lancei meu ovo com força contra o alvo. Que alívio. Pude deixar ali uma parte dos sentimentos que a peça havia despertado em mim; uma parte da minha infeliz intimidade com os temas que atravessam o espetáculo.
Para além desse impacto, Divórcio apresenta uma dramaturgia cuidadosamente construída. As atrizes estabelecem uma sintonia entre si, com o texto, com o espaço cênico e com o público. A encenação articula documentos, ficção e testemunhos sem perder o fluxo da narrativa. A iluminação potencializa a atmosfera de cada cena e evidencia as mudanças de tempo e de perspectiva. Merece destaque também a trilha sonora que, muito mais do que preencher transições, nos obriga a escutar criticamente letras de músicas naturalizadas há décadas dentro de nossas casas. Aquilo que tantas vezes cantarolamos sem perceber revela, de repente, a violência cotidiana do machismo incorporada à cultura.
Divórcio me levou a lugares onde eu jamais gostaria de voltar. Mas também me mostrou caminhos que o teatro pode abrir no interior dessa dor coletiva. A violência patriarcal produz isolamento. O teatro, quando encontra sua potência política, realiza o movimento contrário: reúne. Não para apagar a dor, mas para impedir que ela continue sendo vivida em silêncio. É essa, para mim, a contribuição mais radical do espetáculo. Transformar o isolamento em experiência coletiva e fazer da plateia não apenas testemunha da violência, mas participante de um ensaio de outro modo de existir. A possibilidade de um teatro feminista revela aí uma das suas maiores forças: denunciar o mundo que temos e nos permitir experimentar, ainda que por noventa minutos, o mundo que desejamos construir.
Ficha Técnica:
Dramaturgia: Alexandre Dal Farra e Raissa Gregori
Atuação: Dina Alves e Raissa Gregori
Direção: Raissa Gregori
Pesquisa: Cecília Galvani e Eleonora Nacif
Cenografia: Valdy Lopes
Iluminação: César Pivetti
Audiovisual: Outras Palavras
Preparação corporal: Lucas Brandão
Desenho de som: Daniel Fonseca
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação
Produção e realização: Corpo Rastreado
Direção de produção: Marcella Guttmann
Produção executiva: Bento Carolina Idealização: Cecília Galvani
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