Pra Lá de Marrakech: notas sobre o que não sei

 

Uma atriz, alguns tapetes e objetos de cena, uma boa iluminação, um texto bem escrito e narrado. Acolhimento, aconchego e distâncias, muitas distâncias. Sonhos, perdas, revoltas e vazio. Interação, recepção, risos e choro. Assim, a atriz Khazar Masoumi atravessa o palco com uma presença que nos mantém perto.



Apesar da minha formação em História, constato sem espanto, mas com brutal honestidade de quem se especializou em coisas outras, que não sei quase nada sobre o Irã. Tampouco sobre a antiga Pérsia. Enquanto assistia a Pra Lá de Marrakech, percebi que esse desconhecimento não era apenas meu. Reconhecemos imagens, repetimos notícias e, por vezes, emitimos opiniões sobre conflitos que atravessam continentes, mas conhecemos pouco além da superfície das histórias que sustentam essas vidas.

A peça se abre pelas frestas metafóricas dos tapetes que aparecem logo no início da encenação e me levaram imediatamente à sala da casa da minha infância. Eles habitam um imaginário que me é familiar e, ao mesmo tempo, distante. Sei de onde vieram, mas quase nada sobre o mundo que carregam consigo. Quando a atriz nos conta sobre sua fabricação e suas histórias, a Sherazade abre caminhos em nossa imaginação, e nos aproximamos aos poucos de uma cultura que revelará em cena uma história em particular. Percebe-se então que a personagem Sherazade aparece como um belo recurso dramatúrgico para costurar uma narrativa didática sem abandonar a poesia. A direção de Lubi acolhe essa narrativa sem aprisioná-la, dando ritmo à palavra e espaço para que ela respire. 

Com isso, Khazar Masoumi nos conduz durante quase uma hora por uma transformação marcante: da mulher de véu, em pleno casamento, para outra que ocupa o corpo de maneira radicalmente diferente. Entre a celebração e a ruptura, entre a mulher alegre e receptiva e a imigrante que chora de dor e saudade, navegamos por sensações e emoções junto à atriz, suas roupas, costumes e sotaque. E essa sensação de não compreender tudo acabou me acompanhando até esta escrita.

Eu saí da peça com mais perguntas do que respostas. E talvez seja justamente esse seu gesto mais bonito: lembrar que existem histórias que pedem menos certezas e mais escuta.



Ficha Técnica:

Direção, cenografia, vídeo: Luiz Fernando Marques (Lubi) 
Atuação e dramaturgia: Khazar Masoumi 
Direção musical e operação de som: Murilo Lourenço 
Figurino: Liss Santos 
Produção: Corpo Rastreado

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