O risco calculado da vulnerabilidade

 


Foto:  Alle Vidal







Em tempos em que a intimidade se converte facilmente em conteúdo e as fronteiras entre o público e o privado parecem cada vez mais tênues, partir da experiência de uma mulher que encontrou no sexo virtual uma fonte de renda durante a pandemia é um mote teatral potente. Em TIP, Milla Fernandez transforma essa vivência em matéria cênica e nos conduz por um universo que, embora não seja exatamente desconhecido, ainda permanece cercado por silêncios, preconceitos e curiosidades.
A primeira qualidade da montagem está justamente em sua capacidade de capturar a atenção da plateia. A direção, as escolhas visuais, o desenho rítmico da encenação e, sobretudo, a presença de Milla Fernandez constroem uma experiência envolvente. Sua interpretação é impecável. A atriz mobiliza múltiplos recursos expressivos como o canto, música, humor, domínio corporal e trânsito entre idiomas, sem que a narrativa perca fluidez. Entramos em sua história e permanecemos nela durante toda a duração do espetáculo.
O humor e a autoironia também desempenham papel fundamental. A atriz parece consciente da exposição a que se submete e faz dessa consciência uma ferramenta dramatúrgica. Há uma coragem evidente em se colocar no centro da narrativa e compartilhar aspectos tão íntimos de sua trajetória, movimento este que faz com que surjam as questões mais instigantes da obra.
A dramaturgia oscila entre autobiografia e ficção, mas em diversos momentos a sensação é de que a performer mantém controle absoluto sobre o relato. Ela explica, comenta, interpreta e frequentemente antecipa as próprias conclusões. Como espectadora, senti falta de acompanhar alguns dos processos subjetivos que atravessam a experiência narrada. Como se aprende a performar desejo para desconhecidos? Em que momento a negociação entre trabalho e intimidade deixa marcas mais profundas? Como se constroem os mecanismos de sobrevivência emocional diante de tantas horas de exposição? Quais são os custos psíquicos dessa atividade para além daqueles que a narrativa já nomeia? A peça menciona consequências, mas nem sempre parece interessada em habitar as zonas mais contraditórias que as produzem.
Outra questão diz respeito ao próprio lugar social de onde emerge esse relato. Embora a dramaturgia dialogue com temas como precarização, sobrevivência e autonomia financeira, ela também nasce de um contexto específico de classe, que poderia ser mais explorado. O que significa recorrer ao sexo virtual para sobreviver? E o que significa recorrer a ele para manter determinado padrão de vida? São perguntas distintas, com implicações distintas, e a peça parece preferir permanecer no terreno da experiência individual.
Também me perguntei sobre a natureza do risco que o espetáculo reivindica. Há, sem dúvida, exposição. Mas trata-se de uma exposição cuidadosamente enquadrada por uma encenação sofisticada, por uma direção experiente e por uma artista que demonstra absoluto domínio dos recursos de que dispõe. A vulnerabilidade aparece, mas sempre mediada por uma camada de elaboração que impede que a experiência se torne verdadeiramente incômoda ou opaca.
Talvez a pergunta mais interessante que TIP desperte não seja sobre sexo virtual, mas sobre a transformação da intimidade em espetáculo. O que acontece quando uma experiência profundamente privada é convertida em produto cultural? O que se ganha nesse processo e o que inevitavelmente se perde?


São questões que a peça suscita, com base em suas escolhas. Enquanto mulher, saí do teatro desejando menos explicações prontas e mais espaço para habitar essas contradições. Ainda assim, permanece a força de uma atriz extraordinária e de uma encenação que sabe exatamente como manter sua plateia dentro da narrativa. Inclusive, com uma generosidade quase didática, TIP nos ensina passo a passo como funcionavam as chamadas, os códigos, os clientes e até os caminhos para entrar nesse universo digital. Não como apologia, evidentemente, mas neste momento abre-se uma fresta que deixa escapar aquela pergunta inevitável, meio desconcertante: e se…?


FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e Performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção Musical: Federico Puppi
Trilha Sonora Original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e Luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo Design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de Apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

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