Breves notas sobre Medeia, o tempo e a permanência

 

Foto: João Caldas


Em um momento em que a cena teatral frequentemente se deixa atravessar por dispositivos e mediações tecnológicas, a escolha de encenar Séneca com centralidade na palavra, na atuação e na construção plástica do espaço é uma ousadia feliz. A direção de Gabriel Villela aposta no rigor do texto e confia que sua densidade ainda pode nos afetar.

Séneca é retórico, expansivo, por vezes vertiginoso. Há sempre o risco de que a força discursiva se transforme em excesso ou cansaço. Não é o que ocorre aqui. A atuação trabalha tecnicamente a palavra: respiração, ritmo e intenção mantêm a escuta ativa ao longo da progressão trágica. O texto não é engessado nem engolido; é elaborado em cena. O resultado é uma experiência atenta, sem verborragia gratuita.

A cenografia chama atenção de imediato. Delicada e monumental, organiza as marcações com dinamismo e eficácia traduzindo uma estruturação do movimento que fornece energia para a cena. A luz, a musicalidade e a trilha sonora intensificam o caráter ritual da encenação. O uso de máscaras e a presença do coro retiram a narrativa do campo estritamente psicológico e a recolocam na dimensão do mito.

A escolha de três intérpretes para o papel-título — Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros — reforça essa leitura. Cada atriz imprime um tom próprio à personagem, o que impede a fixação de uma única Medeia. A personagem deixa de ser apenas indivíduo para tornar-se força histórica e simbólica. A diluição do papel acentua sua dimensão mítica e amplia as possibilidades de leitura.

O debate sobre etarismo, proposta desta encenação, não permanece no plano discursivo: ele se inscreve na própria composição do elenco. Ver corpos maduros ocupando o centro da tragédia é um gesto político. A presença de Walderez de Barros, especialmente no desfecho, concentra essa potência. Aos 85 anos, sua Medeia não sugere fragilidade, mas densidade. O tempo, ali, não atenua a personagem; radicaliza-a.

Quanto ao infanticídio, a encenação opta por não espetacularizar a brutalidade. O gesto extremo é anunciado, preparado, inscrito no rito. Não há naturalismo na cena do assassinato; mas uma construção simbólica. Essa escolha desloca o foco do ato para as condições que o tornam possível. Em vez de produzir choque imediato, a montagem nos conduz à reflexão sobre a engrenagem que antecede a violência. A pergunta deixa de ser “como pôde?” para tornar-se “o que a produziu?”.

Historicamente, Medeia foi frequentemente reduzida à figura da mulher desmedida, vingativa ou insana, alegoria funcional a uma ordem que teme a ruptura feminina. A leitura aqui proposta tensiona essa tradição. No contexto brasileiro contemporâneo, a personagem emerge menos como símbolo de vingança e mais como metáfora radical da mulher que se recusa a permanecer no lugar da descartável. Não se trata de justificar o gesto trágico, mas de deslocar a lente crítica para as estruturas de exclusão, exílio e renegação que atravessam sua trajetória.

A inteligência da montagem reside nessa articulação: rigor técnico na palavra, elaboração formal consistente e inflexão política que não transforma o clássico em panfleto. O mito não é museificado. É tensionado. E, ao ser tensionado, permanece vivo.

Serviço – Espetáculo

Medea

Sesc Consolação – Teatro Anchieta - Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque – São Paulo/SP

Temporada: até 15 de março de 2026

Quintas, sextas e sábados, às 20h | Domingos, às 18h

26/2 e 5/3. Quintas, às 15h 

6/3. Sessão com Libras

Duração: 80 minutos | Classificação: 16 anos

Ingressos: R$ 70 (inteira) | R$ 35 (meia) | R$ 21 (credencial plena)

Informações sobre o início das vendas das novas sessões: Venda on-line: a partir de 03/03 (terça-feira), às 17h, pelo site centralrelacionamento.sescsp.org.br e pelo aplicativo Credencial Sesc SP. Venda presencial: a partir de 04/03 (quarta-feira), às 17h, nas bilheterias do Sesc São Paulo.

Março de 2025


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