Reparação: memórias, violência e o cotidiano como dramaturgia

Foto: Mari Chama

O cenário de Reparação nos transporta imediatamente para um salão de beleza dos anos 1980, espaço cuidadosamente construído que funciona quase como uma dramaturgia à parte. Para nós, que crescemos nos anos 80 e 90, cada objeto – do telefone às revistas impressas, do café servido em louça tradicional ao Gil Gomes no Aqui e Agora – evoca memórias de infância e adolescência, imergindo o público em uma época marcada por rotinas e pequenos rituais cotidianos. Figurinos e penteados completam a atmosfera, transformando o espaço em um relicário vivo, onde o passado se faz presente de forma sensível e precisa.

Dentro desse espaço historicamente situado, acompanhamos a narrativa de uma jovem estudante vítima de abuso sexual por dois colegas de escola, que, após engravidar, é forçada a deixar sua cidade. O caso, infelizmente representativo de uma realidade cotidiana, ganha profundidade pela multiplicidade de vozes que o circundam: professoras e professores, colegas de sala, vizinhos. A dramaturgia de Canhameiro entrelaça essas perspectivas, revelando não apenas o impacto individual do trauma, mas também a construção social de apagamento e silenciamento, particularmente sobre corpos femininos em contextos de violência.

O elenco – Daniel Gonzalez, Fábia Mirassos, Luiz Bertazzo, Marilene Grama, Nilcéia Vicente e Yantó – impressiona pela capacidade de transitar entre todos os gêneros e personagens, oferecendo leituras múltiplas e nuances inesperadas. Cada intérprete consegue imprimir singularidade a cada papel, mantendo uma fluidez que reforça a complexidade da narrativa sem cair na confusão. Destaca-se, nesse contexto, a força hipnótica de Fábia Mirassos, que domina a cena mesmo em momentos breves, e a versatilidade de Luiz Bertazzo, que transita com naturalidade entre personagens diversos, incluindo figuras cômicas que evocam memórias de infância.

A projeção audiovisual merece atenção especial. Longe de ser um recurso decorativo, ela dialoga com a narrativa, potencializando a experiência sensorial do público e criando camadas adicionais de percepção da época e do espaço. As imagens completam a encenação sem sobrecarregá-la, inserindo-se de maneira orgânica e estética.

A presença da cabeleireira e da manicure, Maria França e Rosa de Carlos, adiciona uma dimensão de autenticidade ao salão, mas sua participação, apesar de interessante, poderia ser explorada de forma mais significativa. Elas reforçam a sensação de cotidiano, mas quase funcionam como adereço, sem interferir profundamente na encenação principal.

Todo o elenco mantém o ritmo da peça com dedicação e precisão. A dramaturgia recorre a certas repetições para reforçar camadas da narrativa; embora enriquecedoras, elas se prolongam, pedindo ao público uma atenção constante e intensa para acompanhar cada detalhe e cada mudança de perspectiva.

Em Reparação, Canhameiro constrói uma dramaturgia sensível e crítica, na qual o cotidiano – aqui, o salão de beleza – se revela terreno fértil para a reflexão sobre violência de gênero, memória social e possibilidades de reparação. Ao conjugar estética, história e política, o espetáculo nos lembra que o espaço da teatralidade é também um espaço de pensamento crítico e resistência feminista, onde memórias fragmentadas podem ser revisitadas, problematizadas e, parcialmente, reparadas.

FICHA TÉCNICA:

Encenação e dramaturgia: Carlos Canhameiro

Elenco: Daniel Gonzalez, Fábia Mirassos, Luiz Bertazzo, Marilene Grama, Nilcéia Vicente e Yantó

Manicure em cena: Maria França 

Cabelo e maquiagem em cena: Rosa De Carlos

Trilha Sonora e música ao vivo: Yantó

Cenário: José Valdir Albuquerque e Carlos Canhameiro

Iluminação: Gabriele souza

Assistente de iluminação: Diego França

Figurinos: Bianca Scorza (acervo Godê)

Videografia: Vic von Poser

Técnico de som: Pedro Canales

Técnico de luz: Finn Fernandes

Técnico de vídeo: Ana Lopes

Produção: Mariana Pessoa e Leonardo Inocêncio

Apoio: Cine Dom José, FJ Cine - Giscard Luccas e Jasmim Produção Cultural

Livro: Editora Javali

Piano - Be my husband: Daniel Muller

Assessoria de imprensa: Canal Aberto - Marcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo

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