Do ponto inimigo ao ponto de encontro em A (Re)tomada
Eu tenho escrito e falado muito sobre fazer crítica a partir das nossas experiências, enquanto pessoa. Essa perspectiva passa pelo pessoal, pelo nosso corpo, pelo que é público, pela política.... E, assistir a (Ré)tomada, da Zózima, me convoca enquanto espectadora mãe. E é exatamente a partir deste lugar que escrevo agora.
Estava no ponto de ônibus com minha filha às 19h aguardando ônibus para irmos da Zona Leste da cidade de São Paulo até a Praça Roosevelt. Segundo um app, o ônibus iria demorar, então chamei um carro de aplicativo. Saímos do ponto para pegar o carro. O ponto de ônibus estava cheio. Minha filha disse que, quando passamos, um homem sentado no ponto a olhou "com maldade". Sem querer entender direito o que ela estava dizendo, eu perguntei o que ela queria dizer. Ela apenas repetiu. Com maldade. Com maldade, sabe? Infelizmente, eu sabia. Abracei ela segurando o choro enquanto pensava que era a primeira vez que ela percebia um abuso. Provavelmente não a primeira vez que acontecia, mas a primeira que ela sentia.
Dentro do ônibus da Zózima Trupe, já estacionado diante da SP Escola de Teatro, outra travessia começou. A peça “A (Ré)tomada da palavra ou A mulher que não se vê”, dirigida por Anderson Maurício e com atuação de Ma Devi Murti, transforma o veículo em território cênico e político. O público entra como quem embarca, mas o que se move ali não são as rodas, é a consciência.
O espaço é reconhecível: bancos estreitos, o barulho dos pedestres, a cidade atravessando as frestas das janelas. A iluminação, delicadamente ajustada ao interior do ônibus, cria um clima de urbanidade íntima. Há som ao vivo e uma sensação de coletivo, mas sem o incômodo que costuma atravessar o corpo das mulheres no transporte público. O que se mantém é o calor humano, a partilha de proximidade, o estar junto.
A presença de Ma Devi Murti é, ao mesmo tempo, vigorosa e cotidiana. Ela não “interpreta” uma passageira — ela é a passageira que nos olha nos olhos, conversa, cutuca, pergunta. Reconhecemos nela gestos conhecidos: o modo de segurar na barra, o equilíbrio do corpo nas curvas, o olhar que observa tudo. Sua atuação habita o ônibus com naturalidade, mas também o transcende: há teatralidade sem artifício, há força sem distância.
A dramaturgia, assinada por Shaira Mana Josy e Piê Souza, tece com precisão essa linha entre o real e o simbólico. Inspirada em Rosa Parks e Flávia Diniz, a peça pergunta o que significa “ser vista” e o que significa não ser. Quando a protagonista exige que o motorista volte para buscar a mulher negra em cadeira de rodas, e o público encontra apenas uma cadeira vazia, o invisível se faz matéria. A ausência pesa, fala, toma corpo.
No final, há um gesto que desloca tudo: a atriz sobe no ônibus. Fisicamente acima de nós, ela inverte a hierarquia cotidiana e o gesto se torna símbolo. Mulher negra em posição de comando, voz e corpo no alto, retomando um espaço que historicamente a oprime.
Há um momento que a personagem comenta sobre os “pontos amigos” espalhados por locais economicamente favorecidos da cidade, e diz que, na periferia, o que há são os “pontos inimigos”. Minha filha então me olha e diz: “Igual ao ponto que a gente estava hoje”. Do ponto inimigo ao ponto de encontro, do medo à presença, da maldade percebida à retomada da palavra, a Zózima faz um ótimo acerto em receber crianças como espectadoras, sem precisar fazer um teatro infantil, pois, onde é imposto que crianças não são bem-vindas, nós mulheres também não somos.
E, por uma hora dentro de um ônibus parado, sentimos o que significa realmente movimento.
Ficha técnica
Atuação: Ma Devi Murti
Dramaturgia: Shaira Mana Josy e Piê Souza
Direção: Anderson Maurício
Músicas: Cleide Amorim
Direção vocal: Eloiza Paixão
Direção de movimento: Janette Santiago
Desenho de luz: Junior Docini
Iluminação: Flávia Servidone & Abner Félix
Figurino e adereços: Clau Carmo
Maquiagem: Gil Ramos & Suze Ferreira
Cenografia: palhAssada ateliê soluções cenográficas
Percussão: Victória dos Santos & Aworonke Lima
Sonoplastia: Pedro Moura & Bárbara Frazão
Vivência de voz, corpo e ancestralidade: Camila Sá
Designer: Nando Motta
Conteúdo do programa do espetáculo: Wanessa Yano
Fotografia: Christiane Forcinito & Leonardo Souzza
Vídeo: Leonardo Souzza
Coordenação de produção: Tatiane Lustoza
Assistência de produção: Samyra Keller, Iara Nazario, Kauã Tripoloni, Maytê Costa
Estágio de produção: Mabel Machado, Samuel Sousa
Convidadas da roda de conversa: Suely Rezende; Flávia Rosa; Dra° Kambandô Juliana, Marli de Fátima Aguiar, Priscila Obaci
Idealização: Zózima Trupe
Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Marina Franco Realização: Arte expressa

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